Em momentos de pandemia, reflexões sobre a transitoriedade…

Por René Schubert
Psicoterapeuta, Psicanalista e Colunista no JORNALZEN

Nas últimas semanas, com a pandemia, as posturas de cuidado e recolhimento social, a quarentena, as notícias, riscos e receios fizeram com que muitas das conversas, debates em Lives, vídeo aulas, vídeo conferências com clientes e alunos feitas online por mim neste período abordassem a temática da finitude, da transitoriedade, do luto.  Por conta disto trago este texto que toca e convida à refletir a temática. Boa Leitura!

Nossa maior angústia: nossa finitude

A morte e sua correspondente noção de perda fazem parte do desenvolvimento humano desde a mais tenra idade e acompanham o ser humano no seu ciclo vital, deixando suas marcas. No passar destas etapas, podemos desenvolver certa maturidade em relação a este processo:

  • Durante a nossa primeira infância não se apreende nem o sentido da vida nem o sentido da morte.
  • Na segunda infância se começa a personificar a morte como algo externo a nós e por volta dos oito a nove anos inicia a compreensão de que não se é imortal e que a morte vem para todos.
  • Na adolescência apesar se ter a compreensão intelectual do fato ainda não se tem a maturidade emocional e os jovens se comportam como “heróis” que sempre vencem, e nunca morrem.
  • No começo da idade adulta ainda se vislumbra a morte como algo distante, de nossa família e amigos mais próximos. Há muito para se construir e assume-se uma postura de que não há espaço para interrupções nestes planos e sonhos de futuro.
  • Na meia-idade, a morte e a perda começam a ser encaradas de frente, não há como fugir mais do fato. Admitiu-se tanto intelectual, como emocional e existencialmente a possibilidade de finitude. Por meio de vivências de perdas encontra-se o mundo real que contempla tanto a vida quanto a morte. Perdem-se avós, pais, amigos, familiares e não se pode negar a realidade que se impõe à vontade de permanecer.
  • Os idosos em sua maioria já não sentem o mesmo medo da morte que sentiam nas fases anteriores do desenvolvimento. Apesar da finitude estar mais próxima e causar ansiedade, funciona também como uma preparação para o momento final. Há uma clara consciência do percurso de vida, dos feitos realizados, da família criada, e isto traz outra maneira de ver, sentir e pensar a transitoriedade.

Claro que o desenvolvimento deste amadurecimento emocional é variável de pessoa para pessoa e tem forte relação com o contorno cultural, vivências de vida e crenças religiosas e espirituais de cada um. A postura frente a transitoriedade, impermanência e evanescência das coisas é singular em cada Ser Humano.

Reações à perda: processos de luto

Ao se falar de morte, finitude, inevitavelmente, o tema nos conduz ao processo do luto, que se refere ao conjunto de reações diante de uma perda. Lembramos que existem mortes e processos de luto por ausências, separações e vivência de desamparo. O processo de luto se dará diferentemente. Quanto maior o investimento afetivo, quanto maior o apego, tanto maior a energia necessária para o desligamento e elaboração da perda.

O enlutado por qualquer tipo de perda deve ter a mesma atenção e cuidados por parte de quem o acompanha, seja o psicoterapeuta, o guia religioso, a família ou a sociedade. Perda significa privação e qualquer pessoa que passe por uma privação sente-a como a pior dor do mundo. Não podemos mensurar a dor do outro. Em qualquer tipo de perda, seja ela concreta (morte) ou simbólica (separação), é muito difícil quantificar a dor que a pessoa sente.

Colin Murray Parkes coloca que o luto é a experiência psicológica mais dolorosa que qualquer pessoa irá vivenciar e, quanto maior é o amor, maior é essa dor. Da mesma maneira, quanto maior o apego, maior o sofrimento. O psiquiatra britânico complementa: “Não há dúvida, o luto é um preço que temos de pagar. Algumas pessoas acham seu luto tão doloroso que ficam com medo de amar novamente”.

E realmente muitas pessoas entram em um processo patológico depressivo e melancólico, que pode durar anos, uma vida inteira ou até influenciar as gerações seguintes.  Anos sofrendo por um objeto externo e interno perdido. Isto denuncia a dificuldade para desapegar-se do ente querido, elaborar a perda e seguir a vida apesar de.

Para Sigmund Freud : “luto é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, a perda de um objeto externo e/ou interno, como o país, a liberdade, o ideal de alguém e assim por diante”. Esta perda tem uma dinâmica externa, visível à sociedade e interna, silenciosa e invisível. Muitas vezes se faz o luto pelo objeto externo, pelo corpo, pelo que havia na realidade, mas não se consegue fazer o luto pelo objeto internalizado, idealizado. E a não vivência e elaboração deste processo de luto e perda prende simbolicamente a pessoa a esta situação, por mais tempo que tenha se passado.

As reações mais esperadas frente à morte são: entorpecimento, estarrecimento, ilusão, desespero, descrença, histeria, pânico e choque. As inesperadas podem levar a confusão mental, estado de catatonia, depressão, colapso nervoso, reações psicossomáticas, adoecimento, e surto psicótico.

O psicólogo britânico John Bowlby nos fala das fases do processo de luto. A primeira, o entorpecimento, a sensação de torpor e choque nos defende por algumas horas. A segunda, o anseio e busca da figura perdida que dura meses e anos. É comum e natural que a pessoa enlutada veja sinais da pessoa falecida em tudo. Ele escuta a voz do morto, sente seu cheiro, sonha muito frequentemente, escuta passos e tem a impressão de que o morto está presente. A terceira é a desorganização e desespero, o momento de enfrentamento da realidade. A quarta fase é a reorganização – quando a pessoa começa pouco a pouco retomar sua vida e rotina, de uma forma diferente, nova. É neste momento que ela irá ressignificar a sua vida. Neste momento irá aceitar a realidade, por mais dura e difícil que seja. Ira se confrontar e trabalhar a dor da perda. Buscará se readaptar ao local onde vivia com a pessoa falecida e com os comportamentos sociais e culturais que partilhava.

De forma parecida a  psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross descreve alguns estágios de sentimentos e afetos que se seguem à perda, que variam de pessoa para pessoa, e que podem inverter sua sequência, mas que estão envolvidos no processo de elaboração e luto:  negação e isolamento; raiva; barganha; tristeza e desânimo generalizado; aceitação.

Também afirma que alguns processos são importantes para elaboração do luto, entre os quais: (1) reconhecer o luto, (2) reagir à separação, (3) recolher e re-vivenciar as experiências com a pessoa perdida, (4) abandonar ou se desligar de relações antigas, (5) reajustar-se a uma nova situação, (6) reinvestir energia em novas relações.

Ter a morte como companheira…

O psicanalista norte americano Irvin Yalom  aponta que o medo da morte sempre se infiltra por baixo da superfície, assombrando as pessoas durante toda a vida, fazendo com que estas ergam fortes defesas psíquicas contra estas – muitas destas defesas baseadas na negação. É um tema que surge direta ou indiretamente nas terapias. A evanescência e transitoriedade das pessoas e coisas é um fato diário e que, exatamente por sua natureza efêmera, torna a vida bela, dando valor aos objetos e seres, pois estes passam, como pontuou o psicanalista Sigmund Freud. Yalom sugere que o psicoterapeuta deva falar abertamente sobre a morte com seus clientes. Conta como em sua experiência com pacientes terminais, estes puderam dar um novo significado e força à sua vida, a partir da conscientização da morte: “reveem as prioridades de seus valores e começam a trivializar as futilidades de suas vidas. É como se o câncer curasse a neurose – fobias e preocupações pessoais mesquinhas parecem se desfazer”. Destaca também como o Luto, o lidar com a perda e/ou morte do outro, é uma experiência limite cujo poder é raramente aproveitado no processo terapêutico – processar e elaborar o luto leva a reparação de objetos e imagens internas e externas e leva os indivíduos a atingirem um novo nível de maturidade e sabedoria.

O psicanalista e teólogo brasileiro Rubem Alves também pontua a importância de se refletir e se aproximar da finitude e transitoriedade nossa, e das coisas. Relembra que nas escrituras sagradas encontramos: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer“. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.

Os profissionais Aroldo Escudeiro, Maria Julia Kovács e Colin Murray Parkes apontam e defendem os benefícios de uma educação para o luto e a morte, no sentido de falar abertamente sobre isto com crianças, em escolas e instituições. Seguir na linha contrária à morte interdita, tornando-a novamente um fato natural: “se faz necessário que os profissionais se disponham mais a refletir e trabalhar as questões pertinentes à morte e a perda, pois com certeza isso facilitaria a sua prática e seria um grande ganho para a sua vida pessoal” (ESCUDEIRO,2005)

Para a psicanálise, sabemos que o conteúdo reprimido tem uma ação limitadora. Ao tomar consciência de uma imagem inconsciente, posso lidar com ela. Posso reconhecê-la, elaborá-la e finalmente integrá-la e, com isto, ela passa. Porque a recordei, posso esquecê-la. Isto é saudável. Em muitas psicoterapias, eventos dramáticos reprimidos são trazidos a luz para que sejam concluídos. Estes eventos são como um movimento que se congelou, como sucede num trauma.

As Constelações Familiares e seu olhar e postura, frente a morte e o morrer

Bert Hellinger aponta como por meio da psicoterapia ou pelas constelações familiares acaba se trazendo à tona temáticas que tocam na morte de parentes e histórias antigas, de segredos, feridas, perdas e exclusões.

No caso de um trauma, o movimento é retomado até que se esgote e possa ser esquecido. É lembrado para que possa passar. Encontramo-nos ligados aos mortos à medida que nos lembramos deles e os presentificamos em nossas vidas por esta lembrança, na forma de imagens, comportamentos, posturas.

A dor e o luto são processos necessários para que possamos nos separar daquele(a) que partiu. Aquilo que os mortos nos deram, independente se bom ou ruim, forte ou fraco, leve ou pesado, continua atuando sobre nós. Quando tomamos nas mãos o que nos foi dado por esta pessoa e agradecemos, deixamos que o passado passe e seguimos no presente, com os que ficaram em nossa alma.

Bert Hellinger faz uma parábola lembrando que nas histórias de fantasmas, ou de espíritos que assombram uma casa ou família, existe sempre a referência de que aquele fantasma teve em sua história o pertencimento negado ou foi deserdado, excluído, abandonado, deixado de fora de seu sistema original. E desta forma, ele “perturba”, até que seu lugar seja restabelecido, ou que receba um lugar.

Só quando tem um lugar, pode descansar e deixar os vivos em paz. Percebe-se isto nas Constelações Familiares; quando o excluído ou temido recebe um lugar, abençoa aqueles que estão a sua volta e cessa seu movimento de reinvindicação. Assim, quando reconhecidos e respeitados, podem partir em paz, dando força aos que permanecem vivos.

Claro que, para obter tal reconhecimento e lugar, algo precisa ser feito. Uma imagem precisa ser recordada, um gesto precisa ser efetivado, uma compensação precisa ser feita – e muitas vezes vemos, nas constelações familiares, a reconciliação, o perdão, o tomar para si parte da responsabilidade ou ceder a responsabilidade para quem lhe é devido, são gestos, frases, posturas que trazem alívio e liberação para o sistema familiar.

“Todos, até a geração de nossos bisavós e as vezes tataravós, que puderem ser lembrados, atuam em nosso sistema tal como se estivessem presentes. Mas atuam principalmente aqueles que, por qualquer motivo que seja, tenham sido esquecidos ou excluídos do sistema”
Bert Hellinger – Anerkennen was ist

Referência Bibliográfica

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SCHUBERT, R. A Transitoriedade das coisas: a morte, a perda e o luto. Disponibilizado em 2013 no Blog pessoal do psicoterapeuta: https://reneschubert.blogspot.com/2013/03/a-transitoriedade-das-coisas-morte.html?spref=tw

SCHUBERT, R. – A morte e o morrer nas Constelações Familiares. Disponibilizado em 2019 pela plataforma Movimento Sistêmico: https://www.movimentosistemico.com/post/a-morte-e-o-morrer-nas-constela%C3%A7%C3%B5es-familiares

SCHUBERT, R. – Constelação Familiar: impressa no corpo, na alma, no destino. Reino Editorial, São Paulo, 2019

YALOM, I.D. – Os desafios da terapia – reflexões para pacientes e terapeutas. Ediouro, Rio de Janeiro, 2006

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