ELPIDIO PINHEIRO
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Carta à criança de rua

Confesso que as exigências da vida (as naturais e as muitas outras que criei) me fizeram esquecer de você. Quando pequeno, sentia-me descuidado e sem privacidade, pela presença de tantas pessoas estranhas ao núcleo familiar em minha casa. Muito precocemente, isolei-me na leitura de enciclopédias e livros e passei a construir “um mundo só meu”: Com muito empenho, comprometimento, seriedade e foco em resultados.

Com o passar dos anos, já adulto, em muitos momentos sentia uma dolorosa saudade de algo e uma tristeza profunda pela ausência de alguém, para as quais não sabia dar nome ou reconhecer a face. Sei agora que era de você, minha criança de rua, que tanta ausência lamentava e de quem tantas saudades sentia.

Venha correndo para os meus braços e para o meu colo. Abrace-me e se entregue confiante. Respire e sorria. Perdoe-me pelo esquecimento e pelos sofrimentos que lhe causei, por minha inconsciência e pelas tribulações do cotidiano que me impus. Agora lhe reconheço como parte essencial de meu corpo e de minha alma. Sem sua presença, não quero mais viver.

Comigo estará segura e tem permissão para expressar seus sentimentos: brincar, correr, jogar bola na rua, tomar a primeira chuva da primavera, subir na mangueira, rolar pelo chão, comer muito brigadeiro e fazer todas as estripulias que tiver vontade. Minha alegria será ver sua espontaneidade, ouvir seus risos e tentar responder suas misteriosas perguntas.

E, quando se machucar, venha correndo para o meu colo, para que eu cuide de suas feridas e possa consolar seu choro.

Agora, reunidos em comunhão, o adulto e a criança em um só corpo, temos a bênção e o convite para retornar de onde viemos. E ali, redimidos pela Consciência Plena, gozarmos a felicidade e a bem-aventurança.

Sigamos caminhando adiante, a passos firmes, apreciando a paisagem: alegres e despertos. Muito serviço nos espera!

 

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