RENÉ SCHUBERT
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Cuidando do cuidador

Convido-o(a)s para a reflexão tão importante sobre os cuidados que o psicoterapeuta, terapeuta, facilitador, cuidador, precisa ter consigo mesmo. Isto parte do momento atual, em que vemos tantos profissionais da saúde, arriscando suas vidas, colocando-se a serviço para garantir os cuidados e bem-estar de outrem. E do cuidador, quem cuida?

O material de trabalho do cuidador é o material humano. O dia todo em contato com as manifestações e conteúdos trazidos por crianças, jovens, adultos, idosos, casais, famílias. Afetos, emoções, histórias, tramas e dramas. Angústias, incômodos, insatisfações. Conflitos. Dores e machucados. Traumas, transes e mecanismos de adaptação. Personagens preferidos e preteridos. Exclusões, preconceitos, raiva. Pensamentos sombrios. Desejos assustadores. Fantasias terríficas e por vezes libertadoras. Vínculos pesados, mas também vínculos leves. Crenças limitantes ou as que levam e mantêm o sucesso. Palavras mal ditas… Palavras mágicas. Relacionamentos tóxicos, relacionamentos fugazes, relacionamentos sofridos… Relacionamentos que levam adiante.

E por todas estas cenas, dores e cores… A pessoa do cuidador já passou. Já vivenciou e presenciou. E é esperado que tenha trabalhado estas, em seus próprios espaços terapêutico de escuta, acolhimentos e elaboração.

Como colocado pelo facilitador Thomas Bryson: “Um cliente trará suas sombras para o atendimento, para o campo. Para adentrar nestas sombras, o terapeuta precisa estar preparado, precisa ser capaz de estar e se manter na presença. Para tal, precisa conhecer suas próprias sombras, e precisa ter visitado e tomado contato com as mesmas diversas vezes. Apenas um terapeuta que conhece suas próprias sombras pode entrar nas sombras do cliente sem ser desviado ou engolfado por estas.”

E, como apontado pelo o psicanalista Jorge Forbes, “somos profissionais do incompleto”. Lidamos com a incompletude. Com o imperfeito. Somos incompletos e imperfeitos. Isto nos faz inquietamente buscar, aprimorar, transformar. Nos transformar. Nos cuidar, para cuidar. O trabalho do cuidador… É constantemente sobre si mesmo. Para poder fornecer recursos e ferramentas, reflexões e estratégias, possíveis e vívidas ao seu paciente/cliente.

Sigmund Freud apontava para a importância do tripé da psicanálise: análise pessoal, supervisão e estudo teórico. Trabalhar seus temas pessoais, suas angústias e medos em seu próprio espaço terapêutico. Supervisionar as questões práticas difíceis que surgem no dia a dia da clínica. Aprofundar e manter os estudos teóricos, pois cada paciente/cliente traz o novo. Cada caso é um caso. Desenvolvemos as hipóteses, estratégias, tratamentos, a partir de cada novo caso como este se apresenta e desenvolve. Lidando com seres humanos, como o(a) próprio(a) terapeuta, o(a) mesmo(a) precisa estar em constante movimento de escuta, paciência, tolerância, inclusão do novo, supervisão, aprimoramento, aprofundamento, abertura. Somos incompletos, vulneráveis e frágeis… Também… E isto não é uma fraqueza, muito pelo contrário, isto é uma força. Para tal, precisamos trabalhar, com frequência, estes aspectos. Estar atentos e respirar conscientemente. Entrar em contato. Reconhecer. Diferenciar. Transmutar. Dar um lugar. Integrar. Atuar, com consciência e presença!

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