ZENTREVISTA: Alice Garcia
CONFIANÇA E LIÇÕES
Respeitada e celebrada por seus pacientes, Alice Garcia é oncologista há mais de 40 anos. Essa área médica lhe atraiu porque, quando se trata de câncer, “cada paciente é um caso, cada doença é uma lição”. Durante esse tempo de atuação e formação contínua, Alice fundou com o colega Juvenal de Oliveira a OncoCamp, reconhecida na área pela equipe e tratamento humanizado. Mãe, médica e esposa, nesta entrevista ao JORNALZEN Alice compartilha sua experiência, atitude frente à doença e, principalmente, sua crença na possibilidade de cura.


Como ser oncologista afeta sua vida pessoal, dado que essa é uma área da medicina com muito sofrimento. O que a sra. faz para se cuidar?
Afeta, mas eu tento me manter impermeável para os problemas de todos os pacientes. Vivo os problemas dos pacientes enquanto estou com eles. Quando eu saio do consultório, a hora que entro na minha casa, meus problemas ficam para fora, senão não teria como conviver com isso. Lógico que os sofrimentos nos afetam, mas a gente está tentando ajudá-los, e isso traz alento. Toda vez que consigo ajudar um paciente na melhora da dor e da qualidade de vida, é um prêmio que não tem preço.
Como responde quando confrontada com a inevitável pergunta: “Por que eu vou morrer com essa doença?”.
“Quanto tempo eu tenho de vida?” Essa pergunta eu escuto todos os dias. Minha resposta é: “Não sei. Não estou aqui cuidando da sua morte, estou cuidando da sua vida”. Porque a morte, dentro da minha religião, da minha espiritualidade, ela virá, queira ou não. Com câncer, sem câncer, por acidente, tiro… Então, não consigo evitar a morte. Não tenho como dar tempo de vida, mas tenho como dar vida para o tempo. O que a gente tem que fazer nesse intervalo? A oncologia me ensinou a viver cada momento, cada dia, da melhor maneira possível: alegre, buscando coisas que deem satisfação, deixando mágoas para trás e perdoando as confusões. Seja humilde. É muito bom viver.
Existem muitos estudos sobre alimentação em cura do câncer. O que acha disso e já viu acontecer?
Não há nada, na luz da ciência, provando que um alimento cura câncer. Infelizmente, não. A gente precisa conhecer o mecanismo de cada tumor. Cada tumor tem um comportamento, um tipo de tratamento. Enfim, o alimento ajuda a manter você em boa condição, com células em condições de lutar contra o câncer, mas tratar o câncer, não. Existe agora uma confusão de que açúcar dá câncer. Isso não existe! Se fosse assim, eu não teria um diabético na minha clínica. E os diabéticos que não usam açúcar têm câncer, como qualquer outra pessoa.
Porque o tratamento do câncer é tão caro ainda hoje? Como assegurar que todos tenham acesso a tratamentos de qualidade?
Para você chegar a uma molécula que combata o câncer de forma eficaz, o custo disso é imensurável. Recentemente, em um evento eu soube que custa, mais ou menos US$ 4 mil por segundo para se chegar a um tratamento de câncer. Essas moléculas são primeiramente criadas em balcão de laboratório, depois estudadas em células, em cultura de células e passam para a fase animal (cobaias). Depois passam para um tipo de macaco e, finalmente, ele vai para o humano. Depois são feitos estudos randomizados, um braço com o medicamento, o outro braço com o medicamento de escolha que existe atualmente, e lá na frente se analisa o melhor. De cada dez moléculas que se desenvolvem para tratar câncer, uma sai para a prateleira. As outras nove não dão certo por toxicidade proibitiva ou porque não foi possível criar uma situação para utilizá-la. Isso tudo é bancado pelo laboratório, e depois os custos vão para o paciente. Hoje, o domínio que se tem sobre o câncer é sensacional se comparado à época em que eu comecei, quando perdi muitos pacientes que hoje não perderia com os recursos disponíveis. Como assegurar que os pacientes tenham acesso a tudo? Aí é com os nossos dirigentes.
O que considera que precisa mudar na formação da nova geração de médicos para serem mais qualificados no tratamento do câncer?
Há oncologistas que só tratam mama, ou melanoma, que é um câncer de pele. Tem outros que só tratam pulmão, porque a demanda é grande, e o que a gente tem para tratar é maior ainda. Quando comecei, havia dois, três esquemas para cada doença. Hoje você tem alternativas, há mudanças radicais no tratamento do câncer. A quimioterapia deixou de ser o único benefício para o câncer. Hoje há imunoterapia, drogas-alvo, etc. Há um leque de opções que encanta de ver como podemos ajudar pacientes que, no meu começo de carreira, não tinham escolha. A nova geração, portanto, tem que estudar muito. A gente tem que aprender todo dia. Às vezes o que você estava fazendo até seis meses atrás, de repente, sai um estudo e aquilo não vale mais. Você tem que mudar tudo.
O que acha do JORNALZEN?
É muito interessante, dinâmico. trata de vários temas com reportagens agradáveis que trazem alguma coisa nova para a gente. Vocês estão de parabéns. Toda vez que recebo o jornal, passo para todo mundo que conheço ir acompanhando.
Qual é a principal orientação que gostaria de passar aos nossos(as) leitores(as) com relação à saúde?
Prevenção. Fumar é absurdo. Hoje há pessoas que fumam vapes. A gente arrepia quando vê, porque sabe que algum grande problema vai ter no final. Não precisa ser só câncer, ela vai ter outros problemas: enfisema pulmonar, vai morrer tossindo. O que eu mais recomendo é fazer exames de rotina uma vez por ano e retornar ao médico.
