9 de julho, Dia do Oncologista

Na residência de clínica médica, comecei a me interessar pela oncologia vendo a tensão dos pacientes lutando pela vida com medo do desconhecido e, depois, a alegria e alívio quando venciam a doença. Vi a imensa tristeza e sensação de impotência da família e do médico na despedida de entes queridos. Pensei: “Essa é para mim. A definição do ‘ser médica’!”.

Alice Helena Rosante Garcia

Na residência de clínica médica, comecei a me interessar pela oncologia vendo a tensão dos pacientes lutando pela vida com medo do desconhecido e, depois, a alegria e alívio quando venciam a doença. Vi a imensa tristeza e sensação de impotência da família e do médico na despedida de entes queridos. Pensei: “Essa é para mim. A definição do ‘ser médica’!”.

Os desafios emocionais da oncologia são profundos e o(a) médico(a) oncologista convive diariamente com temas sensíveis como vida, sofrimento, incerteza, esperança e finitude. Informar um diagnóstico de câncer, uma recidiva ou a progressão da doença não é uma tarefa fácil. É preciso mesclar e equilibrar — honestidade, sensibilidade, clareza, respeito e, principalmente, esperança ao paciente.

Cada ser humano é único e, assim, as mesmas doenças podem ter comportamento diferentes. Mesmo com os avanços atuais, nem todos os pacientes alcançarão a cura. Por isso o(a) oncologista tem que estar atento e reconhecer os casos em que o foco não será a cura, e sim controle de sintomas, conforto e qualidade de vida. Ainda assim, a perda de pacientes é sempre emocionalmente desgastante. Além disso, a doença afeta toda a família. É preciso — além de cuidar do paciente —, apoiar a família, escutar sobre seus medos, gerenciar conflitos e auxiliar nas decisões difíceis.

Apesar dessas dificuldades, para mim a oncologia é uma área de atuação médica muito gratificante. Existe o outro lado da moeda, no qual é possível acompanhar pacientes curados, ver respostas incríveis aos tratamentos, construir relações profundas de confiança e, sobretudo, oferecer dignidade e acolhimento mesmo quando a cura não é possível. Durante 42 anos de atuação médica nessa área, descobri que não devo lutar com a morte (única certeza de nossas vidas), mas sim usar todas as armas disponíveis para que a vida tenha dignidade e qualidade até que a morte chegue, após a cura ou na vigência da doença.

E aí há uma pergunta final: como o(a) oncologista lida com tudo isso sem afetar sua vida pessoal? Quando a atividade diária enfrenta situações limítrofes, criamos subterfúgios que nos ajudam a ficar impermeáveis ao sofrimento. É como se, ao tirar o jaleco no fim do dia, os problemas ficassem com ele no consultório ou no hospital. Nossa família e amigos(as) criam um cenário em que podemos descontrair e relaxar com uma boa convivência. Por isso, posso assegurar que ao longo desses anos mudei substancialmente a minha maneira de ver a vida, de medir o tempo e de perdoar e jamais guardar mágoas. Aproveitar cada minuto como se fosse o ultimo há bastante tempo se tornou minha meta.

Termino dizendo que, se fosse necessário, faria tudo outra vez. Se tivesse que escolher uma especialidade médica novamente, escolheria a oncologia, sem nenhuma dúvida.

Desejo a todos(as) os(as) colegas de profissão um feliz Dia do Oncologista!


Alice Helena Rosante Garcia é médica oncologista. Possui título de especialista em Oncologia Clínica pela Sociedade Brasileira de Cancerologia e pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Também é certificada pela American Society of Clinical Oncology e pela European Society of Medical Oncology.


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