ZENTREVISTA: Daniel Roizman
PERSEGUINDO A VERDADE
O psicólogo e psicanalista Daniel Hamer Roizman é um profissional dos tempos modernos. Mestre em Psicologia Social e pesquisador do Programa de Pesquisas em Experiências Não Ordinárias e Estados Alterados de Consciência (Proexp) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estuda temas ainda à margem da psicologia tradicional, incluindo obesidade, humor, espiritualidade, experiências anômalas (paranormalidade) e OVNIs. Daniel é autor de livros como Gaiata psicanálise, A obesidade “não toda”: ou quando a gordura fala, A psicanálise das experiências anômalas, Paixanaliticom: psicanálise e comicidade e Espiritualidade na clínica psicanalítica. Nesta entrevista ao JORNALZEN, ele fala um pouco mais sobre o universo terapêutico e sua diversidade temática.


Um de seus livros trata de experiências anômalas (paranormais). O que é isso e por que o tema é ainda pouco conhecido no Brasil?
Há uma distância entre o que as pessoas vivem e o que elas relatam publicamente. Tanto as experiências paranormais como a espiritualidade derivada ou não delas são frequentemente estigmatizadas pelo olhar descrente. Em um mundo centrado apenas no material — sucesso físico e financeiro, as pessoas criam máscaras sociais, aparências e comportamentos superficiais, para serem aceitas. O afastamento da sociedade da essência do ser e de valores espirituais, leva à amputados da transcendência, da paranormalidade e do sagrado das produções acadêmico-científicas, pois não são consideradas dimensões verdadeiras no âmbito da concepção materialista. Por exemplo: alguém que diz ter falado com seu parente falecido é automaticamente visto como tendo alucinação ou inventando. As pessoas temem ser consideradas infantis e/ou loucas, porque os fenômenos não são compreendidos em função do estreitamento de visão imposto pelo mundo ocidental que se desvinculou das religiões, do misticismo e dos saberes ancestrais que não tomavam o ser humano como um acaso da natureza. Ao amputar o sagrado passamos a enxergar e viver a vida cotidiana como um ser vazio, sem brilho e sem propósito. Isso gera dor emocional e doenças.
Se alguém com experiências espirituais precisa de ajuda, a quem deve procurar?
Podem recorrer à literatura não acadêmica, que contém relatos de experiências similares tanto dentro como fora de instituições e/ou sistemas religiosos. Hoje também há canais no YouTube que tratam dessas experiências como normais e enriquecedoras. Meus pacientes sabem que sou aberto ao paranormal e ao espiritual como dimensões intrínsecas ao ser humano. Basicamente, a maior dificuldade é que eles(as) sofrem com o preconceito que eu citei: loucura, deboche, diagnósticos, falta de empatia. Já quando gostariam de falar sobre isso, em geral tendem a guardar essas experiências com receio de julgamento e, às vezes, contam suas histórias para pessoas em quem confiam...
Conte um pouco sobre seu trabalho com obesidade que o levou a escrever um livro.
Meu livro sobre obesidade foi derivado da percepção de que o mundo moderno é pautado em excessos e atravessado pela angústia e pelo vazio. Hoje, ao resgatar a questão da espiritualidade, vejo como o “alimento para a alma” é fundamental para nos mantermos satisfeitos através de afetos e atitudes como gratidão, doação, perdão e empatia. Em suma, quanto maior a compulsão alimentar, menos a alma se sente efetivamente nutrida. A comida em excesso é um sintoma da solidão e da falta de lugar no mundo e no tempo. Desse ponto de vista, é fundamental uma clínica que busque transcender a dimensão material de modo a que a matéria (comida) esteja aliada a um “estado de espírito equilibrado”.
Você é um estudioso dos OVNIs. Já atendeu alguém que diz ter sido abduzido?
Desde pequeno fui envolvido pelo tema OVNI por meio de experiências de avistamento pessoais e filmes e documentários a respeito. Quando comecei a clinicar, recebi pacientes que traziam essa temática em diferentes níveis. Inclusive, em 2017, tivemos uma experiência fantástica, eu e um paciente, quando interagimos com uma “sonda ufológica” (objeto voador anômalo não identificado possivelmente não tripulado) durante um atendimento clínico no terraço do meu consultório em São Paulo. O menino de 10 anos na época não suportou o contato que precisou ser interrompido logo quando a esfera metálica do tamanho de uma bola de basquete apareceu e respondeu aos meus movimentos emitindo luzes de seu interior. Posso dizer que essa e outras situações nos trazem questões tais como a travessia do estranho e do desconhecido e de como podemos ou não avançar emocionalmente frente a ele. Já o tema da abdução é mais complexo, pois a pessoa geralmente alega ser levada por seres e submetida a experimentos contra a sua vontade. Geralmente esses episódios marcam definitivamente a vida da pessoa e podem provocar surtos ou crise psiquiátrica, mas também transformações profundas nos planos emocional e espiritual. O alien, por exemplo, pode aparecer como abusador ou como agente de cura e vetor de uma espécie de “alteridade cósmica”, já que usualmente ampliam a dimensão existencial ao nos colocarmos como uma espécie inserida no universo que necessita de amor e cuidado e que tem a vida caracterizada por propósitos altruístas. Ou seja, desse ponto de vista as “abduções alienígenas”, por mais intensas e traumáticas que sejam, acabaram servindo para reparar e/ou desenvolver potenciais do ser humano. Algo semelhante a um “recall veicular” que serve para reparar uma peça defeituosa do carro antes que algum acidente aconteça.
Que tipo de pesquisa o Proexp realiza sobre experiências espirituais e com qual objetivo?
O programa é organizado pelos professores Homero Vallada e Everton Maraldi, cuja proposta é inovadora e ousada porque possui a missão ética de produzir conhecimento e quebrar de estigmas associados a experiências anômalas/não ordinárias. Trata-se de uma tentativa de unir os dois mundos separados: espiritualidade, experiências não ordinárias e a ciência e seus limites.
Como vê o JORNALZEN, que tem a missão de informar para transformar?
É uma proposta ousada e romântica que valoriza o ser humano nas suas diferentes dimensões. Contempla o sagrado e o transcendente como vetores de cura e transformação e, por esse motivo, mantém vivos os espíritos de nossos ancestrais e uma crítica ao modus operandi materialista de nosso mundo contemporâneo
Que mensagem gostaria de deixar aos nossos(as) leitores(as)?
Que possamos perseguir a verdade onde quer que ela vá, pois ela nos libertará. Na escada da luz, cada degrau conquistado condiz com nosso tesouro do dia a dia.
