ZENTREVISTA: Lilian Galvão
CHAMADO ANCESTRAL
Uma mulher contemporânea, estudiosa, destemida, inovadora e buscadora natural. Assim pode ser definida a professora Lilian Galvão. PhD, psicóloga e consultora inspiracional com doutorado em Estudos Africanos pelo ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa), ela está sempre em busca de algo para contribuir com o desenvolvimento e reconhecimento de grupos vulneráveis. Tudo que lhe desperta o coração a atrai e a leva adiante... Lilian já morou no Sudeste, no Centro-Oeste e no Nordeste brasileiro. Já morou e trabalhou na Escócia, em Portugal e na Guiné-Bissau. Já estudou na Índia, no Canadá e no México. Sua formação, portanto, é múltipla e multifacetada. Premiada duas vezes por suas realizações, Lilian trabalhou como consultora da Unesco, Unicef, GIZ – Cooperação Alemã, União Europeia e ONU Mulheres. Nesta entrevista ao JORNALZEN, ela inicia falando sobre seu novo projeto, uma imersão na Guiné-Bissau.


Gostaríamos de saber sobre seu mais novo projeto, que visa levar um grupo de brasileiros para a África.
Esse projeto nasce de uma escuta profunda ao longo da minha trajetória como professora, psicóloga e pesquisadora internacional. Muitos dos meus alunos da Medicina e da Psicologia me diziam: “Professora, queremos conhecer a África”. E isso me tocava profundamente. A imersão se chama “Saúde Global, Cooperação Internacional e Desenvolvimento Humano Sustentável” e acontecerá na Guiné-Bissau, país onde vivi, realizei minha investigação doutoral por longos seis anos e construí uma parte essencial da minha identidade acadêmica e humana. Mas mais do que uma viagem, a imersão é uma travessia. Existe em crioulo guineense uma expressão muito bonita: “Tchon tchama” — “A terra chama”. E eu sinto que esse projeto responde exatamente a esse chamado ancestral. Um chamado de reconexão, de memória, de aprendizagem e de consciência.
Como e onde as pessoas podem obter mais informações?
As informações estarão disponíveis nos meus canais oficiais. Importante enfatizar que essa é uma experiência de caráter decolonial e antirracista. Não se trata de voluntariado, nem de caridade, nem de uma lógica de “ajuda ao outro”. Essa perspectiva já não cabe mais no mundo que queremos construir. Nós vamos à África para aprender, dialogar e cooperar com parceiros guineenses em uma relação horizontal e respeitosa, que se destina também a apoiar a formação de estudantes universitários guineenses brilhantes, que serão nossos anfitriões. Eles irão nos apresentar a cidade, suas histórias, suas perspectivas e seu cotidiano. O grupo tem no máximo 21 participantes, justamente para preservar profundidade, vínculo humano e qualidade das experiências. Vamos escrever um livro, com um capítulo de cada participante, e também buscamos apoio para um segundo livro construído em parceria com estudantes guineenses, além de um documentário audiovisual que registre toda a experiência. Estamos abertos a parcerias institucionais, padrinhos e empresas que desejem apoiar um projeto sério, ético e de impacto humano real.
Por que se autodenomina uma psicóloga e consultora inspiracional? De onde vem esse termo?
Esse termo não foi planejado como um rótulo. Ele nasceu da vivência. Ao longo da minha trajetória como psicóloga, consultora, gestora de projetos e docente, percebi que o meu trabalho não se limitava ao tradicional. Ele também envolvia despertar, expandir e reposicionar pessoas diante da própria vida em face de suas multipotencialidades e dimensões. Sou uma mulher que atravessou muitos territórios, vivi em diferentes culturas, realidades sociais e sistemas de pensamento, e isso me ensinou algo fundamental: ninguém se transforma ou inspira sem atravessar e ser atravessada por experiências.
Com tudo o que realizou, você deve ter nascido em uma família com recursos. Se não, como conseguiu recursos para suas viagens e aprendizagens?
Não, não nasci em uma família com recursos. Sou filha de migrantes brasileiros. Minha mãe saiu do agreste pernambucano nos anos 60 em busca de trabalho e sobrevivência. Meu pai migrou do interior de São Paulo para a capital com a mesma esperança de construir uma vida melhor. Eles se encontraram, formaram uma família e nos ensinaram algo muito valioso: o valor do trabalho, da dignidade e da educação formal. Estudei em escola pública, fiz universidade trabalhando para me custear. Sou psicóloga há 25 anos, e minha trajetória foi construída com amor pela educação, persistência, boas relações interpessoais, trabalho, ética e isso tudo me levou a construir uma trajetória internacional.
Você é leitora do JORNALZEN. Como nosso jornal contribui para melhorar sua vida em geral?
O jornal tem uma contribuição muito especial, porque consegue unir profundidade e sensibilidade. Em um mundo acelerado, fragmentado e muitas vezes superficial, encontrar um espaço que valoriza reflexão, consciência, espiritualidade e cultura é algo raro e necessário. Um espaço de pausa consciente, que não apenas informa, mas convida à reflexão, ao pensamento crítico e ao autoconhecimento.
Poderia deixar algumas dicas inspiradoras para nossas(os) leitoras(es) se autorrealizarem?
Sim, com alegria. Abrace a sua ancestralidade, porque não somos indivíduos isolados. Somos continuidade de histórias, travessias, dores, resistências e sonhos que querem se realizar. A reconexão nos fortalece, e não esperem condições ideais para começar. Viajar para dentro de si e para fora amplia horizontes e consciências.
