A escuta do silêncio

Quando eu penso em silêncio como ausência de palavras, imagino os aspectos internos e externos presentes na comunicação humana. No aspecto ambiental, eu lembro dos barulhos que sou obrigada a ouvir, sem poder alterar... o barulho dos carros, betoneiras em canteiros de obras, publicidade abusiva de candidatos políticos, pessoas falando alto e crianças gritando. Algumas pessoas têm buscado habitar áreas menos barulhentas para se livrar da poluição sonora.

Profa. Dra. May Guimaraes Ferreira

Quando eu penso em silêncio como ausência de palavras, imagino os aspectos internos e externos presentes na comunicação humana. No aspecto ambiental, eu lembro dos barulhos que sou obrigada a ouvir, sem poder alterar... o barulho dos carros, betoneiras em canteiros de obras, publicidade abusiva de candidatos políticos, pessoas falando alto e crianças gritando. Algumas pessoas têm buscado habitar áreas menos barulhentas para se livrar da poluição sonora.

Quando estamos na floresta ou em áreas verdes urbanas, podemos ouvir o som de pássaros, do vento nas folhas, da chuva caindo, do crepitar do fogo, dos urros dos animais silvestres e de nossos próprios passos. Os povos originários desenvolveram a percepção auditiva mais acurada que os permite ouvir sons que nós, habitantes das cidades, não conseguimos escutar. Eles devem saber diferenciar o trinado de diferentes aves em paisagens diversas e, pelas ondas sonoras emitidas pelos sabiás, reconhecem distâncias ou o anúncio da presença de um predador de grande porte. As cigarras e os grilos anunciam a mudança de temperatura e as chuvas. Dentro de uma floresta, o silêncio é um sinal importante que pode ser interpretado de várias maneiras. E dependendo do ambiente que está ao redor, é preciso distinguir os sons da correnteza dos rios, o barulho forte das ondas do mar e até os estalos de galhos anunciando um possível desabamento.

Podemos treinar o ouvido para ouvir sons mais sutis, distinguir sons, ter atenção às notas musicais produzidas por diferentes instrumentos e acumular memória afetiva e sonora. É raro, porém, alguém se dar conta de que o silêncio faz parte da pauta musical. No canto coral, é preciso saber a hora certa de fazer as pausas da pauta, para respirar liberando o som a ser reproduzido claramente. O silêncio não é interrupção, mas uma forma diferenciada de conexão. São muitas as pessoas que não conseguem parar de falar sem começar a se mexer constantemente. As tensões interiores que não alcançam as palavras se manifestam corporalmente, mesmo que ainda não tenhamos denominação emocional para elas.

Nosso cérebro pode ser treinado para percepção e identificação de sons diferentes, organizando-os em categorias. Nós podemos fazer a estimulação dos nossos sentidos para ouvir o silêncio que vem do ambiente e o que vem de dentro de nós mesmos. A percepção acurada de sons e ruídos pode ser útil e até salvífica, como os que estão presentes na respiração humana. As pausas da respiração são tão importantes quanto os movimentos vitais. O silêncio interior se revela através de palavras, gestos e imagens.

O poeta Manoel de Barros tinha uma imaginação fértil sobre o silêncio e os sons das coisas simples. Ele acreditava que era preciso desaprender a audição comum, para poder alcançar com o corpo inteiro a espessura e as texturas das coisas invisíveis e mudas: “Porque eu não sou da informática, eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios (...) não gosto das palavras fatigadas de informar.”

A tradição monástica do deserto revela que na oração o crente se ocupa em se comunicar com Deus. Enquanto isso, no silêncio meditativo a pausa restauradora permite escutar a Deus na dimensão do espaço interior. A prática frequente de escuta do silêncio interior pode levar a uma posição mental livre dos ruídos dos pensamentos. A diminuição contínua da escuta das preocupações e desejos leva ao estado de escuta da dimensão profunda interior: o nosso infinito interior que precisa de pausas silenciosas para lentamente se manifestar...


Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.


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