A síndrome do excesso leva ao vazio?
A problemática do vácuo existencial causada pela transformação civilizatória contemporânea está levando a nós — profissionais da psicologia — a nos debruçarmos sobre essa temática tão importante para a nossa vida mental e sobrevivência humana.
Profa. Dra. May Guimaraes Ferreira
A problemática do vácuo existencial causada pela transformação civilizatória contemporânea está levando a nós — profissionais da psicologia — a nos debruçarmos sobre essa temática tão importante para a nossa vida mental e sobrevivência humana.
O tema angústia-vazio e ato foi profundamente abordado pelo coletivo de Psicanalistas no 36º Congresso de Psicanálise Latino-Americano, que aconteceu no Chile (29 de setembro a 3 de outubro), vinculado à Associação Internacional de Psicanálise, fundada em 1910.
Atualmente, os especialistas enfatizam que pessoas que sofrem com angústia do vazio não conseguem pensar sobre si mesmas e suas experiências vividas que geram consequências psíquicas como esgotamento mental. Podemos até apostar que ocorre uma epidemia de burnout, que é o apagamento psíquico. Um amplo número de pessoas sentem-se em constante desamparo, sentimento de angústia e vazio. Há estados mentais em que a ausência de simbolização gera a sensação de vazio em decorrência também da diminuição da possibilidade de pensar e da ampliação da capacidade mental.
O sujeito contemporâneo pode estar impedido de elaborar formas de pensamento mais complexos e de alcançar formas de representação da sua experiência vivida. O excesso de informações e a rapidez das mudanças tecnológicas têm também provocado uma série de desdobramentos na vida psíquica de nós, seres humanos porque nós somos feitos e construídos pelos vínculos presenciais.
Desde a mais tenra infância, desde a vida intrauterina, nossa mente se constrói pelas experiências parentais primitivas principalmente maternas. Esse processo de desenvolvimento não ocorre no ritmo dos ventos e dos furacões, não há aceleração do desenvolvimento orgânico e do desenvolvimento infantil.
Somos feitos de tempo presente, de pausas, de de silêncio, de música, de afetos e de emoções profundas. A linguagem que nos habita não surge por acaso nem espontaneamente. Cada um de nós é inserido ao nascer, ou pelo menos ou ainda ao ser concebido, na cultura dos nossos pais e mães, dos nossos ancestrais.
A psique individual não é uma explosão gerada artificialmente. O todo social, mais especificamente as experiências vinculares primitivas fazem a construção da nossa mente primitiva. O indivíduo, a identidade, a personalidade, o caráter, a moral, a justiça e a política são atributos que nos permitem participar dos grupos, comunidade e das sociedades. Ao renegarmos a essência da nossa vida mental fundada na existência real, presencial, vincular, corremos o risco de esvaziar a nossa própria pessoa.
O excesso de virtualidade rapidamente processada causa o vazio de conhecimento e de sentimento. Não raramente as pessoas ficam expostas à intrusão subjetiva de conteúdos representacionais aleatoriamente produzidos, principalmente em forma de imagens que rapidamente podem adquirir status de realidade psíquica.
É isso que estamos a presenciar nas formas de campanhas políticas recentes, tanto nacional quanto internacionalmente. Notícias factoides são veiculadas de uma maneira célere e transformam uma instituição democrática em desperdício de valor moral como se fosse uma bola de neve ao ser derretida. Essas ocorrências repetidas estão causando avanços de políticos de extrema direita sem condições humanas e cognitivas de legislar ou governar algum tipo de país.
O estado democrático de direito está em risco tanto no Brasil quanto nas sociedades em outros países. A angústia do vazio, acrescida da falta de esperança de renovação política e social, pode levar as pessoas a optarem por soluções políticas extremistas. A invenção do século XIX para gerir as controvérsias e as contradições entre a classe trabalhadora e o capital, representado pelo Estado, está sendo diluída. O poder que está na mão de grandes empresas da virtualidade não tem limites geográficos, não tem limites legais porque não precisa de nenhum Estado e pode alcançar um poder acima de qualquer Estado e acima de todos e acima de tudo, assim como faziam os grandes e terríveis líderes do fascismo e do nazismo.
Estamos em risco de encontrar políticos, conversões neofascistas e neonazistas na atualidade. Esse é um risco civilizatório! Oxalá não aconteça isso no nosso país…
Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.
