Abril Azul: ampliar possibilidades de cuidado e inclusão
Abril é reconhecido mundialmente como período de conscientização sobre o autismo, com destaque para o dia 2, quando é celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Mais do que uma data simbólica, esse momento convida à ampliação do olhar sobre o desenvolvimento infantil, promovendo informação, empatia e inclusão na sociedade.
Graziella Gamper Nunes Capuano
Abril é reconhecido mundialmente como período de conscientização sobre o autismo, com destaque para o dia 2, quando é celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Mais do que uma data simbólica, esse momento convida à ampliação do olhar sobre o desenvolvimento infantil, promovendo informação, empatia e inclusão na sociedade.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) faz parte da neurodiversidade humana e está relacionado a diferenças no desenvolvimento, especialmente na comunicação, na interação social e na forma como a criança percebe e se relaciona com o mundo. O autismo não é uma doença, mas uma condição do neurodesenvolvimento. Como tal, cada criança apresenta características, potencialidades e desafios próprios. Falar sobre autismo é, antes de tudo, falar sobre singularidade. Não existe um único “jeito de ser autista” e, por isso, o termo “espectro” é utilizado: ele abrange uma ampla variedade de perfis, com diferentes formas de comunicação, interesses e necessidades de apoio.
Nos últimos anos, houve avanços importantes no reconhecimento do autismo, tanto no diagnóstico quanto nas possibilidades de intervenção. A identificação precoce de sinais de alerta — como dificuldades na interação social, ausência ou atraso na fala, pouco contato visual ou interesses restritos — permite o início de acompanhamentos que favorecem o desenvolvimento global da criança. Intervenções iniciadas na primeira infância ampliam as possibilidades de comunicação, autonomia e qualidade de vida.
A família ocupa um lugar central nesse percurso. Receber um diagnóstico pode gerar dúvidas, angústias e inseguranças, sendo fundamental que haja espaço para acolhimento, orientação e construção conjunta de caminhos possíveis. Nesse contexto, o cuidado em saúde precisa ir além dos aspectos clínicos, considerando também as dimensões emocionais, familiares e sociais. Um atendimento baseado na escuta, no respeito e na empatia contribui para que a criança e sua família se sintam apoiadas ao longo de todo o processo.
No contexto hospitalar, alguns desafios se tornam ainda mais evidentes. O ambiente, por sua própria natureza, é marcado por imprevisibilidade e por uma intensidade de estímulos: como luzes, sons, procedimentos invasivos e mudanças de rotina, que podem ser vivenciados como excessivos para muitas crianças no espectro. Nesses casos, comportamentos frequentemente interpretados como resistência ou dificuldade de colaboração podem, na verdade, expressar sobrecarga sensorial ou dificuldade de compreensão do que está acontecendo.
Nesse sentido, o cuidado começa pelo conhecimento da criança a partir daqueles que a acompanham: os pais. Compreender suas preferências, formas de comunicação, sensibilidades e estratégias de autorregulação permite construir uma abordagem mais ajustada e respeitosa. Antecipar procedimentos, oferecer referências visuais, respeitar o tempo da criança, envolver a família como mediadora e utilizar recursos lúdicos são estratégias que contribuem para maior previsibilidade e segurança emocional. Pequenas mudanças na abordagem podem gerar impactos significativos na experiência da criança no hospital, favorecendo sua participação e o vínculo com a equipe.
Além disso, o hospital também pode desempenhar um papel importante na identificação e no encaminhamento de casos. Em muitas situações, sinais de desenvolvimento atípico são percebidos durante atendimentos de saúde, o que reforça a importância da observação sensível e do direcionamento adequado para avaliação e acompanhamento.
Outro ponto essencial na conscientização sobre o autismo é a inclusão. Promover inclusão não significa apenas garantir acesso a espaços, mas criar condições reais para que a criança participe, se expresse e seja compreendida em sua singularidade. Isso envolve desde adaptações no ambiente até uma mudança de postura, menos baseada na correção de comportamentos e mais voltada à compreensão das necessidades e formas de comunicação.
Neste Abril Azul, o convite é para que possamos ir além da conscientização e avancemos na construção de uma sociedade mais acolhedora. Isso implica reconhecer o autismo não como algo a ser “corrigido”, mas como uma forma legítima de estar no mundo, que merece respeito, escuta e oportunidades.
Ao ampliarmos nosso entendimento sobre o autismo, ampliamos também nossa capacidade de cuidar, como profissionais, famílias e sociedade, construindo, juntos, formas mais sensíveis e inclusivas de estar com a infância.
Graziella Gamper Nunes Capuano é psicóloga hospitalar do Vera Cruz Hospital
