Afinal, quem tem A Verdade?
“Cosi è (se vi pare).” Assim é, se lhe parece... é o título de uma novela de Luigi Pirandello, adaptada para o teatro em 1917. No texto o autor desconstrói a racionalidade moderna ocidental, que buscava o conhecimento através da razão e do método científico elucidativo dos fatos verdadeiros. As três personagens da peça sustentam diferentes versões, incompatíveis dos fatos, que permeiam o relacionamento entre elas.
Profa. Dra. May Guimaraes Ferreira
“Cosi è (se vi pare).” Assim é, se lhe parece... é o título de uma novela de Luigi Pirandello, adaptada para o teatro em 1917. No texto o autor desconstrói a racionalidade moderna ocidental, que buscava o conhecimento através da razão e do método científico elucidativo dos fatos verdadeiros. As três personagens da peça sustentam diferentes versões, incompatíveis dos fatos, que permeiam o relacionamento entre elas. A perspectiva de cada um foi narrada a fim de transformar a realidade dos fatos, segundo seus desejos. No contexto público, onde a estória se desenrola, as pessoas começaram a investigar a verdade, até de maneira policialesca. No entanto, a busca da verdade se transformou em apenas uma das possibilidades, construídas pela perspectiva subjetiva de cada um dos personagens. Daí o título sugestivo da peça que fala da criação dos sujeitos, suas fantasias, desejos e memórias particulares. A realidade não está fora do sujeito, ela depende do olhar de cada um.
A transposição dessa questão filosófica para o século XXI, cuja sociedade em rede funciona sob o fluxo do capital financeiro em modo digital, traz uma problemática mais profunda e global. Tudo o que era sólido se transformou em algoritmo, ou pelo menos, quase tudo. Enquanto vivíamos determinados pelas relações presenciais de trabalho, a digitalização apenas começava a construir a representação da realidade nos meios de comunicação eletrônicos. Era possível distinguir o real do virtual (digital), principalmente pela gênese da sua produção e condições de representação. Doravante, os meios de comunicação eletrônicos criam e determinam a realidade, conforme o poder de organização do capital em fluxo global. E, cada vez mais, é preciso estar atento às falsificações político-ideológicas, que se transformam em “verdades” digitais para os mais distraídos. Desta feita, a “verdade” na política está atrelada ao poder de grupos de dominação dos meios de comunicação e mídias sociais, sem limites geográficos, sem ordem mundial, sem lei e sem preocupação social e ambiental.
Quais são as implicações dessa relativização da ordem simbólica vigente para a construção da subjetividade contemporânea? Para a cultura helênica a busca da verdade ou alétheia, representava o desvelamento dos fatos desconhecidos, mas também descobrir o que estava escondido, em busca da memória original. O não esquecimento dos fundamentos ancestrais, que deram origem àquela civilização clássica significava aprender com a experiência histórica, que lhe fazia existir e resistir.
Certamente, a busca da verdade pode ser um processo terapêutico individual e coletivo, além da sua importância vital no ambiente simbólico e cultural. Para o subjetivismo digital converter a verdade em encobrimento da origem dos fatos e promover os esquecimentos da gênese da realidade histórica, poderá levar a desconstrução da estrutura econômica e social existente. Em termos individuais a perda do conhecimento verdadeiro, no sentido da alétheia helênica, também causa a impossibilidade de reconhecimento social e de estabelecimento de relações interpessoais mais humanas. Partindo-se da experiência emocional compartilhada é possível que haja consensos simbólicos onde a verdade se estabeleça. O oposto disso é a tentativa arbitrária de alcançar o consenso forjado, baseado no encobrimento da verdade, como no caso da violência simbólica das mídias sociais em tempos sombrios.
Por isso, em tempos de eleição, fique atento(a) para não acreditar em “verdades” encobertas que contam fatos distorcidos...
Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.
