Além do horizonte de conflitos: a busca incessante pela paz (1)

Von Clausewitz afirmou que a guerra é “a continuação da política por outros meios”. Não é. A guerra é a destruição da política. A guerra é a destruição da sanidade, a destruição de vidas, a destruição da arte, da beleza, da cultura, dos sonhos, das esperanças; é a destruição da própria humanidade. A guerra destrói lares, escolas, hospitais, teatros, museus, praças e parques. A guerra traz a sede, a fome e a escuridão. A guerra destrói a vida.

Luis Henrique Beust

Von Clausewitz afirmou que a guerra é “a continuação da política por outros meios”. Não é. A guerra é a destruição da política. A guerra é a destruição da sanidade, a destruição de vidas, a destruição da arte, da beleza, da cultura, dos sonhos, das esperanças; é a destruição da própria humanidade. A guerra destrói lares, escolas, hospitais, teatros, museus, praças e parques. A guerra traz a sede, a fome e a escuridão. A guerra destrói a vida.

Von Clausewitz era um pensador muito mais refinado do que sua famosa frase deixa perceber. Ao contrário dos que seguidamente a citam, conhecia a guerra (esteve em batalha desde os 12 anos de idade), havia estudado Kant, Hegel, Fichte, von Schelling... Foi capaz de contradizer e superar um estrategista tão articulado e proeminente quanto Bernhard von Bülow, chanceler da Alemanha e ministro-presidente da Prússia sob o Imperador Guilherme II, um posto que já havia sido do grande e poderoso Otto von Bismarck.

Von Clausewitz subordinava a guerra à política, e tinha escrúpulos morais em relação a ela, coisa que seus citadores geralmente não entendem ou não querem entender. Ao contrário de von Bülow, Clausewitz não pensava que a guerra era o melhor dos estados para lidar com as diferenças políticas. Lembremos que o antagonismo de von Bülow à França e à Grã-Bretanha foi em muito responsável pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

A política, se tivermos boa-vontade, é a arte de buscar o bem coletivo através da administração justa do contraditório. A política reconhece “Nós” e “Eles”, a guerra quer o império exclusivo do “Nós”.

No centro do “Nós” está o “Eu”, geralmente um ego inflado e monstruoso na ilusão de grandeza que persegue para si e que impõe a todos, um ego alicerçado na insânia de poder e glória.

A política reconhece o contraditório, a guerra quer destruí-lo. A política dialoga com o contraditório e tenta seduzir os seduzidos por ele; a guerra busca exterminar o contraditório e matar todos os que o defendem.

Acreditar que a guerra é “a continuação da política por outros meios” é tão estúpido quanto considerar que o estupro é “a continuação da conquista amorosa por outros meios”. O estupro não é a continuação da sedução por outros meios.

Para se guerrear melhor, leia-se von Clausewitz. Para se conseguir a Paz, é preciso estudar outros. Para se entender a Paz mundial é necessário estudar Einstein e Freud em “Warum Krieg?”, e Norberto Bobbio em “O problema da guerra e as vias da paz”. É preciso ler e seguir os passos de Galtung, Burton e Isard, entre outros bons e grandes. Acima de tudo, é preciso estudar a “Declaração de Sevilha”, da Unesco, e Shoghi Effendi em “Chamado às Nações”, e a Casa Universal de Justiça em “A Promessa da Paz Mundial”.

A guerra se entende com um microscópio; para se entender a Paz um telescópio é preciso. O microscópio amplifica as coisas minúsculas que estão perto; o telescópio amplifica as coisas gigantes que estão longe. O microscópio ajuda a entender a infinitude das coisas de baixo; o telescópio, a infinitude das de cima. A guerra é coisa terrível e miúda da terra; a Paz é coisa grande e maravilhosa do céu.

Quem quer justificar a guerra vive citando von Clausewitz, como os cruzados viviam citando Jesus: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada” (Mateus 10:34). Não entendem von Clausewitz como não entenderam Jesus.

Quando se tem a ameaça de guerra, ou a guerra mesmo, então se erguem clamores por paz. São geralmente inglórios. Pois os que iniciam a guerra somente escutam seus próprios clamores egoístas de poder e glória (e ouro, claro). E os demais, que fazem a guerra para acabar com a guerra, vão barranco abaixo no rebuliço total do desespero e da ânsia de vitória. Eis a grande tragédia da guerra: para neutralizar o agressor é preciso entrar na arena e lutar com as mesmas armas que ele, pedindo a Deus que a vitória seja dos menos maus.

A paz social, entre homens reais e verdadeiros, não se conquista apenas com conferências, seminários, artigos, frases bonitas, procissões, manifestos e reuniões de oração. Fazem parte, certamente, e podem ser importantes, mas não bastam. Os clamores por paz são geralmente inglórios. Ficam desatendidos. São vozes que pregam no deserto. Se lemos as lições da história, é fácil perceber que a paz somente é alcançada depois de muito sofrimento e dor, de muita desgraça, destruição e morte. Depois de descer aos infernos os homens já não clamam por paz, eles a decretam e estabelecem. Não mais só por anseio, mas por necessidade. A paz é fruto da unidade, e a unidade é fruto da justiça. Construir a paz sem unidade é impossível. Alcançar a unidade sem justiça é impossível. Há mais exigências no caminho da paz do que somente o clamor.


O avanço da unidade e da paz

A longo dos 5 mil anos de história humana, e certamente também na pré-história, a paz sempre foi fruto da superação do desejo de extermínio mútuo. Ou seja, a paz sempre nasceu da unidade: conforme ampliou-se a unidade social, ampliou-se a paz. E isso deu-se lentamente de grau em grau ao longo dos milênios, mas o sentido civilizatório da unidade crescente é indisfarçável. Leia-se — estude-se — Toynbee, Hobsbawm, Huntington, Robert Wright, Rabbani, e outros tantos bons e necessários...

Quando as famílias primitivas deixaram de querer se matar mutuamente e foram capazes de se unir em clãs, a paz se fez entre as famílias. Os clãs se mataram mutuamente até construir entre si a unidade da tribo, e a paz se fez entre os clãs. A guerra entre as tribos acabou quando nasceu entre elas a unidade da cidade-estado, que nada mais é do que muitas tribos vivendo juntas em paz. Foram necessários séculos e séculos para que as cidades-estados eliminassem a guerra entre si e construíssem a paz do estado-nação. A cada novo estágio de unidade social, um novo patamar de paz foi atingido. Esta, em poucas palavras, é a história, a dinâmica e a lógica da paz entre os humanos.

A civilização grega caiu porque as pólis, as poderosas cidades-estados gregas, nunca foram capazes de estabelecer entre si uma unidade que as abrangesse todas. As guerras contínuas entre Esparta, Corinto, Atenas, Tebas, Siracusa, Rodes, Egina, Argos, Erétria, Élis e as cerca de mil pólis que chegaram a existir acabaram por fazer naufragar a Grécia. Viviam todas no mesmo torrão de terra, falavam a mesma e nobre língua, cultuavam os mesmos deuses, tinham os mesmos inimigos externos, mas nunca conseguiram deixar de ser inimigas umas das outras. E caíram todas. Por falta da unidade que as transcendesse e unisse em paz.

As cidades europeias não foram muito diferentes depois da queda do Império Romano. Durante mil anos as guerras entre elas eram contínuas e gerais. Na Itália, por exemplo, Milão, Roma, Florença, Veneza, Nápoles, Pádua, Bolonha, etc., lutaram entre si guerras fratricidas por 14 séculos. Somente com o nascimento da unidade do estado-nação é que a paz se fez entre as cidades-estados. A evolução do grau de unidade trouxe a humanidade ao estágio atual, onde o estado nacional federativo pode talvez ser considerado o modelo mais bem acabado de unidade nacional na liberdade e na justiça. O conceito de nação, se foi tardio na Europa (século XIX), já havia sido construído e consolidado desde o século VII no Islã. Somente muito tardiamente se reconheceu este fato no Ocidente.

E aí estamos hoje: dentro de estados-nação que se antagonizam mutuamente como as famílias, os clãs, as tribos e as pólis se antagonizavam até transcender as barreiras que as separavam e avançar para uma unidade que as unisse. A paz entre cada uma das unidades sociais ao longo da epopeia humana neste pequeno planeta azul sempre se fez quando aquela unidade foi capaz de construir uma unidade maior. A paz das famílias foi o clã; a paz dos clãs foi a tribo; a paz das tribos foi a cidade-estado; a paz das cidades-estados foi o estado-nação...

Não se vê aí uma lógica evolutiva? Não se vislumbra nisso como pode nascer a paz mundial? Einstein o apontou com clareza na carta a Freud, Toynbee o elucidou belamente, Rabbani o descreveu em detalhes, Robert Wright o delineia de forma elegante e sedutora... Os sinais são claros e distintos, mas onde os olhos e os corações que os compreendam? Triste mundo onde vivemos, às vésperas da Terceira Guerra Mundial...

Essa construção de unidades sociais cada vez mais amplas, claro, não foi um processo linear e sereno como parece ao ser enunciado. Nada no avanço humano o é. Houve avanços, retrocessos, luz, sombra, conquistas, derrotas, processos regionalizados, mas o sentido global do processo é hoje em dia muito claro. No geral, o avanço da infraestrutura social (produção, comércio, negócios, etc.) sempre forçou a construção de unidades maiores, que transcendem a unidade da superestrutura social (formas de governo, jurisprudência, educação, etc.). Marx, neste sentido, estava certo.

A forma de ser dos homens sempre os forçou a construir unidades maiores do que as que nasciam do que eles pensavam ser. A natureza humana sempre foi mais forte do que as ideologias. E a natureza humana, e da vida em geral, impulsiona a história sempre para graus mais amplos e complexos de unidade social. A próxima fronteira é o planeta inteiro. Leia-se Marx (A Ideologia Alemã), Toynbee (Estudos de História Contemporânea), e especialmente Robert Wright (Não-Zero) e Shoghi Effendi Rabbani (Chamado às Nações).

(continua na próxima edição)


Luis Henrique Beust é consultor em desenvolvimento humano e social junto à Organização das Nações Unidas (ONU-PNUD)