Além do horizonte de conflitos: a busca incessante pela paz (2)

É frase muito usada mas pouco seguida: quem não compreende o passado é obrigado a repeti-lo. Se lermos corretamente o passado, a única saída para a paz mundial é a construção de uma unidade supranacional que abarque a Terra inteira. Algum tipo de superestado mundial, não um império, mas um tipo de estado federativo das nações do mundo.

Luis Henrique Beust

É frase muito usada mas pouco seguida: quem não compreende o passado é obrigado a repeti-lo. Se lermos corretamente o passado, a única saída para a paz mundial é a construção de uma unidade supranacional que abarque a Terra inteira. Algum tipo de superestado mundial, não um império, mas um tipo de estado federativo das nações do mundo. Nas palavras de Norberto Bobbio, uma paz de equilíbrio, uma paz de mutualidade; não uma paz de domínio ou de império, não uma paz de derrota ou de esgotamento, mas uma paz entre iguais que se respeitam a ponto de não se quererem destruir.

A Organização das Nações Unidas não consegue ser isso. É um mero clube de nações, onde qualquer um pode cair fora quando quiser para fazer sua guerra particular. Na verdade, é uma Organização das Nações Desunidas, e por isso não consegue garantir a paz, nem minorar os sofrimentos de milhões de pessoas vítimas de guerra, pois as decisões são paralisadas por vetos mútuos decididos em salões com ar condicionado. Enquanto dezenas de milhares sofrem e morrem.

O mundo organizado em uma unidade supranacional, um estado mundial federativo de nações, baseado no direito, na justiça e na liberdade pode parecer uma utopia inalcançável. Não é. É apenas uma necessidade que ainda não foi satisfeita. É a próxima etapa na pacificação da humanidade, a etapa final, quando as benesses da paz se estenderão por todo o planeta. As unidades do clã, da tribo, da cidade-estado e do estado nacional também pareciam utópicas para os que viviam nas unidades tacanhas e paroquiais anteriores, mas eram necessidades humanas, e foram conquistadas eventualmente.

Claro que há vozes contrárias a esta perspectiva, por cegueira ou interesses, mas eventualmente a paz mundial na unidade mundial virá, muito certamente depois de uma hecatombe global bem maior do que as que já testemunhamos. As nações estão armadas até os dentes, os ânimos estão alterados cada vez mais, e os líderes mundiais são voláteis. Não é preciso ser profeta para se ter certeza de que em breve (não dou dois ou três anos para isso) a guerra generalizada outra vez abarcará todos os povos. A Terceira Guerra Mundial.

Uma anedota conta que quando perguntaram a Albert Einstein como ele achava que seria a Terceira Guerra Mundial, ele respondeu que não sabia, mas que a Quarta seria com paus e pedras. A destruição do mundo como o conhecemos está apenas começando. Os armamentos atômicos serão utilizados. Cidades serão dizimadas em segundos. Nações inteiras desaparecerão. Milhões — bilhões — de pessoas serão levadas aos estertores da fome, do frio, do desabrigo, do desespero e da morte. E então, como sempre foi, a humanidade renascerá das cinzas, como a Fênix mítica, e renascerá mais alerta, mais sábia, mais capaz. Talvez para sempre. E então a paz mundial será conquistada definitivamente.


O instrumento da paz mundial

O grande instrumento de paz nas unidades sociais que se sucederam ao longo da história sempre foi a capacidade de todos juntos impedir a agressão de uma das partes. A força de todos juntos impedia a violência das insânias particulares. A paz entre os homens sempre foi estabelecida quando se impunha o temor real a uma ação retaliatória de todos contra um. Esse é o princípio fundamental da paz entre os seres humanos. Talvez não seja entre os anjos, mas nós não somos anjos. A existência de um pacto federativo impede hoje que Florença faça guerra contra Veneza que faça guerra contra Milão que faça guerra contra Roma. Atenas, Esparta, Corinto, Tebas e Siracusa não mais guerreiam entre si porque há um pacto federativo: se uma delas tentar fazer a guerra, o exército nacional — todos juntos — o impedirá. A paz entre os homens vem do idealismo, da boa vontade e do amor, mas também do medo.

O problema da paz mundial é que não se conseguiu ainda — ainda! — construir este tipo de unidade federativa forte, óbvia, explícita, jurada e abrangente. O mundo ainda se articula em grupos regionais ou ideológicos antagônicos, em “eixos”, “ententes”, “pactos”, “organizações”, etc. Não há a garantia de que todos se unirão para impedir a guerra de um. Sempre há os que formam parceria de guerra, por qualquer razão que seja. Não há repúdio nem ofensiva coletiva contra o agressor. E assim a guerra segue sendo uma alternativa. Isso é mais que evidente no conturbado mundo de nossos dias. Se houvesse um pacto universal de paz, se qualquer agressor soubesse que todos juntos o atacariam se ele atacasse, ninguém ousaria levantar um dedo contra quem quer que fosse. A paz dos homens exige unidade na vigilância e na garantia da paz.

Como tão belamente ensinou Carol Dweck, graças a Deus existe entre os seres humanos o poder do “ainda não”, tão bem percebido quando pais e educadores são bons o suficiente: “Mamãe, eu não consigo!”, “Tu ainda não consegues!”; “Papai, eu não sei!”, “Tu ainda não sabes!”; “Professora, eu não entendo!”, “Tu ainda não entendes!”; “Vovô, eu não sou capaz!”, “Tu ainda não és capaz!”... Um problema é apenas uma solução que ainda não foi encontrada. Sempre foi assim, sempre será. O problema da paz mundial é somente isso, com todo o sofrimento e desgraça e horror que isso significa. Mas é somente isso: “ainda não” somos capazes da paz mundial. Mas seremos.

A paz é fruto da unidade, e a unidade é fruto da justiça. Construir a paz sem unidade é impossível. Alcançar a unidade sem justiça é impossível. Para a paz mundial é necessária a unidade mundial. Para a unidade mundial é necessário o império da justiça mundial. Aos trancos e barrancos — muitos trancos e muitos barrancos — a humanidade vai acordar para isso. Já há consciência, como nunca antes, a respeito das injustiças e maldades que afetam o planeta: econômicas, sociais, ideológicas, religiosas, geopolíticas, corporativas, comerciais, culturais... Somos craques em injustiças. Mas é da percepção da injustiça que nasce a justiça. E é da justiça ampliada e disseminada que nasce a unidade. E da unidade ampliada e disseminada nasce a paz. Tão simples e difícil quanto isso.

E nisso estamos, e assim é. Como escreveu o grande João Guimarães Rosa, em sua inigualável obra Grande Sertão: Veredas, colocando na boca do ex-jagunço, ex-guerreiro e ex-violento Riobaldo: “...Se todos passam mão em arma e fecham volta de tiroteio, uns contra os outros, então o mundo se acaba...”

Um clamor inglório por paz... Mas inglório por enquanto. Um dia se verá a glória deste clamor, quando se puser a mão na massa, e se deixar de clamar e se começar a agir.


Luis Henrique Beust é consultor em desenvolvimento humano e social junto à Organização das Nações Unidas (ONU-Pnud)


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