ALIMENTAÇÃO CONSCIENTE
Madá Neves
Alimente seu fogo no inverno
O ayurveda me ensinou que não é só o estômago que digere a comida que precisa ser digerida. A mente também digere, os olhos digerem, os ouvidos digerem. E talvez seja por isso que tanta gente hoje vive cansada, inchada e ansiosa, mesmo “comendo bem”. Ainda não aprenderam que comer é diferente de nutrir, e que o ciclo do tempo é o maior indicador para tudo. Na alimentação, nosso corpo age e reage de formas diferentes. Quando criança, tínhamos nossas preferências, agrado ao palato, cores, aquilo que estimula os sentidos, que melhora a nossa frequência. Conforme passamos para as outras fases da vida, não é só isso que conta, mas também precisamos estar atentos a uma forma mais inteligente de nos alimentar, de nutrir não só nosso corpo, mas nossa mente.
Não é só o que entra pela boca que nutre ou intoxica você. É também o que atravessa sua mente, as emoções que você digere e a energia que você consome. A digestão física, o agni (nosso fogo digestivo, em sânscrito) reflete a capacidade do corpo de absorver nutrientes e eliminar toxinas. A digestão mental, por sua vez, reconhece que o estresse e o excesso de estímulos também causam desequilíbrios físicos.
O inverno chega devagar, pedindo coberta, silêncio e chá quente. Lá fora, a natureza se recolhe. E dentro da gente? Nosso corpo também muda. Segundo a sabedoria do ayurveda e da medicina tradicional chinesa, o frio externo desperta um calor interno: o fogo digestivo, ou agni, que fica mais forte nessa época, faminto, pedindo alimento que realmente nutra. Mas aí mora o perigo! Com o fogo interno mais alto, a vontade de comer aumenta. E a indústria já sabe: é tempo de propaganda de sorvete, salada crua gelada, suco detox com gelo. Tudo que apaga justamente a chama que o corpo acendeu pra se proteger. Resultado? Digestão lenta e gases. Sensação de peso, desânimo. Muco contínuo e aquela gripe que não vai embora. O corpo grita por aquecimento e a gente oferece gelo. Não combina, corpo quente alimentação fria é desequilíbrio na certa. Como honrar seu fogo digestivo no inverno? O que fazer para aquecer dentro nos dias em que o mundo estiver frio por fora?
Sopas, caldos, mingaus, ensopados, legumes no vapor e muito mais. Lembrando que o cozimento é uma pré-digestão. Você entrega para seu estômago um alimento que já está “meio caminho andado”. Ele agradece com energia sobrando pra te aquecer, não só pra digerir.
Os maiores amigos do nosso corpo no inverno: raízes e abóboras. Há uma grande variedade de tubérculos como a batata baroa (a mandioquinha), inhame, cará, batata-doce, cenoura e finalmente a queridinha da culinária ayurvédica a abóbora por ser considerada um verdadeiro superalimento devido à capacidade única de nutrir profundamente o corpo sem sobrecarregar o sistema digestivo. Não podemos esquecer deles, os temperos que são abraços naturais no corpo e na alma: gengibre, canela, cúrcuma, cominho, louro, alecrim acendem o fogo digestivo sem agredir.
Comer com consciência no inverno é um ato de autocuidado. É entender que a natureza é cíclica e nós somos parte dela. Aqui vai a nossa bênção: Que neste inverno seu prato seja seu cobertor. Que cada colherada seja um convite pra se aquecer sem culpa, sem excesso, sem apagar o fogo sagrado que te mantém de pé. Um toque zen para você que gosta de cuidar do seu fogo digestivo e proteger a sua paz. Coma com calma, com alma com gratidão. Ao mudar a forma como você digere o alimento e você mudará a forma como digere o mundo.
Profa. Madá Neves, pedagoga. Cozinha desde criança. Estudiosa da alimentação, desenvolve receitas para pessoas celíacas, intolerantes a leite e a ovos.
