Amor agápico e o futuro da humanidade

Conheci inúmeras mães que mediante diagnósticos de doenças graves ou síndromes raras e irreversíveis não pararam de procurar a cura para seus filhos e filhas. Mesmo nos casos em que a medicina tradicional afirmava não ter cura, elas não desistiram. Muitas delas mudaram totalmente a forma de viver para se dedicar totalmente aos cuidados dos(as) filhos(as).

Profa. Dra. May Guimarães Ferreira

Conheci inúmeras mães que mediante diagnósticos de doenças graves ou síndromes raras e irreversíveis não pararam de procurar a cura para seus filhos e filhas. Mesmo nos casos em que a medicina tradicional afirmava não ter cura, elas não desistiram. Muitas delas mudaram totalmente a forma de viver para se dedicar totalmente aos cuidados dos(as) filhos(as). Algumas se sentem confortadas com as pequenas melhorias alcançadas ou com a estabilização de doenças irreversíveis. Mas a experiência de passar pelo luto da perda de um(a) filho(a) provoca inevitavelmente uma profunda dor emocional ao mesmo tempo em que gera uma transformação na forma de sentir e de viver.

Ao observar mães que não recuam diante do sofrimento profundo, fico com a ideia de que elas foram pessoas nascidas para amar ou, desenvolveram ao longo do tempo, essa capacidade. Esse tipo de amor não é um sentimento ou emoção, é uma decisão profundamente consciente de que o sentido da vida fica mais pleno se houver o amor incondicional e suas e consequências. Nem todas as mães possuem esse dom de amar sem medida, mas as que o fazem ultrapassam a barreira da maternidade idealizada.

Há histórias de mães que amam demais, que devem acreditar na música antiga de que “ser mãe é padecer no paraíso”. Na linguagem popular, as mães que amam demais podem acabar ”estragando” seus(suas) filhos(as) porque não educam com limites, tem dificuldade para ensinar o que é necessário e mostrar a diferença entre o que é possível e do que é impossível. Assim, seus(suas) filhos(as) acham que tudo pode e entram na vida despreparados para descobrirem que há regras sociais de convivência e que nem tudo pode! As mães que amam demais podem se tornar refém desse amor dos filhos e, consequentemente, da tirania que pode vir a se estabelecer.

Paulo de Tarso, um dos mais influentes apóstolos do cristianismo primitivo, conhecido como o Apóstolo dos Gentios, em sua primeira Carta aos Coríntios, aponta as condições essenciais do amor agápico: “O amor é paciente, é bondoso, não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente e nem guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.” Talvez seja este um dos mais belos escritos utópicos sobre a esperança da humanidade encontrar o bem comum... Em sendo assim, o amor, o ser humano poderia viver mais plenamente e evitar deliberadamente os conflitos bélicos injustificáveis. Sem o amor agápico, diz Paulo, “o ser humano seria nada como um sino que apenas ressoa.”

Dentre as necessidades psicológicas mais íntimas se encontra a construção do “senso de si mesmo” e do “senso de pertencimento”, capazes de fazer a ligação antropológica mística entre os seres e o inominável poder do divino desconhecido. A aceitação de que Deus é Amor permite a possibilidade de construção da unidade entre os povos mediante as diferenças transponíveis. Uma condição determinante da sobrevivência do Homo sapiens foi a possibilidade de vida gregária.

Sigmund Freud (1916) introduz a ideia acerca do ser humano saudável, aquele capaz de amar e trabalhar (liebenundarbeiten), em suas palavras:


“Acreditamos que, por pressão das necessidades da vida, a civilização foi criada à custa da satisfação instintual e, em grande parte, é constantemente recriada, quando o indivíduo recém-ingresso na comunidade novamente sacrifica a satisfação instintual em prol do todo.”


Quando é que eu, ou cada um de vocês, leitores(as) do JORNALZEN, poderia aceitar a ideia paulina de que conhecer toda a ciência, ter a fé que transporta montanhas, falar todas as línguas da terra, ou ainda possuir o dom da profecia, porém se não tiver o amor, tudo isso é nada? Refletir sobre o amor agápico me faz compreender que na sociedade contemporânea é urgente e necessário construir relacionamentos amorosos no sentido agápico representado pelo amor incondicional, altruísta e sacrificial, frequentemente descrito como o amor de Deus pela humanidade. Diferente do amor romântico (eros) ou fraternal (philia), ágape é uma escolha racional e voluntária de buscar o bem-estar do próximo, sem esperar nada em troca, amando inclusive inimigos, condição fundamental para a sobrevivência e para a felicidade da humanidade.


Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.


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