Amor materno e autocuidado

Alessandra Miranda Soares

Você já pensou no amor de uma mãe com relação aos filhos/as? Agora, imagine o amor de uma mãe de pessoa com deficiência? Não é um amor qualquer... porque ele é feito de coragem cuja raiz é feita de uma resistência que não se abala frente aos desafios!

Esse amor incondicional alimenta cada passo dado em direção à inclusão de seu/sua filho/a, ao desenvolvimento da dignidade na vida, ao direito de pertencer e ser de seu/sua filho/a. É esse amor que faz você levantar todos os dias, mesmo quando o cansaço pesa mais que o corpo. Mas, nesse dia a dia tão intenso, há algo igualmente essencial: o amor por você mesma, porque cuidar exige autocuidado, resistir exige força interna e continuar exige lembrar de seu próprio valor.

O amor materno vai além do afeto. Cada dia de cuidado que você dá ao seu filho/a com deficiência é como se fosse um “motor” que a fortalece e a ajuda a resistir à indiferença, ao preconceito e a exclusão. Esse amor dá força interna para participar de reuniões das escolas, conversas com médicos, enfrentamentos de órgãos públicos, busca por terapias, adaptações, acessibilidades, entre uma lista quase infindável de demandas contínuas. O amor na base de suas ações diárias pede reconhecimento, e não aplausos. E, mais que isso, pede que você não se perca nele porque, quando o foco é todo voltado para os outros/as, é fácil esquecer que você também precisa amor-próprio.

Você não precisa ser uma “supermãe” 24 horas por dia! Deve, sim, ser responsável pela qualidade da sua vida, ou seja, ser um ser humano com limites, dúvidas e força, mas também com sonhos... O autoamor é sobrevivência e não egoísmo. Quando você se ama, você se cuida para impedir que a exaustão se torne desespero, que o cansaço se transforme em desesperança e, que a falta de cuidado se torne doença. Permita-se sentir emoções diferentes (tristeza, alegria, medo, frustração) e as compartilhe com pessoas em quem confia. Permita-se pedir ajuda... porque quando você não está sozinha e, se trata com gentileza, está ensinando ao mundo — e a si mesma, que a sua vida também importa.

Você precisa se tornar resiliente para se levantar, mesmo quando está difícil, e se ressignificar para não se prender ao que passou. Procure dizer “não” quando precisa e crie momentos de leveza, de riso e de autocuidado na sua vida. A resiliência das mães de pessoas com deficiência é única, porque nasce de uma dor que muitos desconhecem, mas também de uma esperança que poucos conseguem manter. Ela não vem de um “superpoder”, vem do amor, da conexão, da responsabilidade, do olhar que vê o/a filho/a como um ser humano com seu tempo, seu caminho, sua luz e não como um problema a ser resolvido. E aqui faço um convite carinhoso: faça uma pausa.... olhe para dentro e faça uma autoavaliação honesta e gentil. Pergunte-se:

  • Quando foi a última vez que fiz algo por mim?

  • Em que momentos eu me sinto forte?

  • O que me faz sentir viva, além do papel de mãe?

Essa reflexão não diminui sua dedicação, pelo contrário, fortalece. Por isso, não fique constrangida para reconhecer que pode chorar, que pode falhar, e está tudo bem! Afinal, a vida tem um fluxo e tudo passa, tudo se resolve... Seja grato por ser quem é... (na coluna da edição de Dezembro/2025, abordo o tema gratidão). Você é amor em movimento, mas não se esqueça que você também é merecedora de carinho, de respeito, de liberdade para viver a vida com plenitude e prazer.

Alessandra Miranda Soares é professora doutora na Ufersa-RN e especialista em Empoderamento de Mães de Pessoas com Deficiência.

alessandrasoares@ufersa.edu.br