Apagamento feminino
Neste Natal, conversava com uma amiga que me comentava sobre as lindas mensagens natalinas que ela recebeu por WhatsApp e também e-mail. Chamou-me a atenção quando ela mencionou a palavra e-mail, pois hoje receber mensagens natalinas via e-mail se tornou coisa rara, visto que a maioria da população brasileira, prioritariamente, usa WhatsApp.
Lenise Lopes
Neste Natal, conversava com uma amiga que me comentava sobre as lindas mensagens natalinas que ela recebeu por WhatsApp e também e-mail. Chamou-me a atenção quando ela mencionou a palavra e-mail, pois hoje receber mensagens natalinas via e-mail se tornou coisa rara, visto que a maioria da população brasileira, prioritariamente, usa WhatsApp.
Durante nossa conversa, fiz uma observação, ao que ela imediatamente respondeu: “Você tem razão. Todas as mensagens que recebi foram através de WhatsApp, exceto uma, que veio de longe, muito longa e de um lugar onde a população praticamente não usa WhatsApp. A mensagem foi escrita exatamente no dia 25 de dezembro de 2025 e enviada para inúmeras pessoas, consideradas amigas e amigos brasileiros (deixava escapar ao leitor um tom saudoso, com certa melancolia; ela foi escrita pelo meu ex-companheiro). Um homem, com o qual dividi a vida durante 16 anos”.
Eu a interrompi e disse: “Olha! Certamente foi uma mensagem de reconhecimento e gratidão pelos tempos vividos juntos”. A minha amiga respondeu: “Não, não foi isso que ele fez. Ele não me contextualizou quando citou o meu nome”. Eu retruquei: “Mas como? No dia de Natal, ele não mandou para você algo ao menos fraterno?”. Ela respondeu: “Realmente não. Ele mandou a tentativa de construção de uma ‘Ode à música Popular Brasileira’, exatamente porque ele estava ouvindo música brasileira o dia inteiro, e por esse motivo veio a inspiração de escrever e agradecer a todos os brasileiros que introduziram na vida dele essa pérola poética, que é a música popular brasileira. A maior parte do mundo reconhece que nossa música é composta por grandes músicos e escrita por magníficos poetas. Na mensagem, ele cita nominalmente pessoas, dando uma ordem cronológica e ao mesmo tempo um grau de importância a cada pessoa que o apresentou e explicou sobre os grandes nomes da música pop brasileira”. E minha amiga continuou: “... em meio aos nomes citados, ele simplesmente inclui o meu nome”. E ela acrescentou: “... ele disse meu nome quase que de forma sutil”.
Percebi, pela maneira como ela me respondeu, que eu havia tocado em um ponto delicado de sua vida íntima. Estava de certa forma desconcertada, e não queria continuar o assunto, mas ela continuou: “Veja, amiga, não é a primeira vez que ele faz isso. Ele escreveu um livro onde, no primeiro capítulo, fez uma citação literal de uma frase que eu costumava usar e até menciona ‘essa frase foi dita a mim por uma pessoa estrangeira’. Essa pessoa estrangeira sou eu. Imagine, você que essa pessoa foi a mulher que ele mesmo, em outros tantos momentos de sua história privada, afirmou ter amado loucamente, ter deixado tudo para trás e correr em busca do amor dela, feito o possível durante 16 anos para viverem juntos para sempre, porque juntos construiriam um mundo. Perceba que a mesma personagem é endeusada em espaço privado, mas, quando em espaço público, a mesma personagem é revista, e mais: essa mulher que mereceu tanto amor e glória é simplesmente apagada. Ela desaparece! Porque esse lugar é apagado totalmente, e nada em seu entorno relativo ao reconhecimento e perpetuação dos seus feitos pode ser mencionado”.
Minha amiga, com um certo ar de lucidez e compreensão da realidade, continuou falando: “... é assim que nos foi contada toda a história a partir do advento do patriarcado. O patriarcado retirou da história humana o protagonismo feminino, causando um total apagamento de todas as importantes ações que as mulheres construíram. Não encontramos descrições na história onde se gaste tempo abordando as atitudes, os comportamentos e os hábitos que demonstrem a riqueza das habilidades femininas. É necessário estarmos alertas para entender que isso é cautelosamente pensado para que ocorra o apagamento da importância das mulheres em cada história privada. Quando a história é contada formalmente, isso é realizado pelos homens, e eles em hipótese alguma dão créditos e reconhecimento às mulheres. As mulheres não se reconhecem na própria história da civilização, o que as deixa extremamente fragilizadas na sua autoestima. Apesar disso, é fundamental entendermos que as mulheres são aliadas dos homens e, também, são aliadas de outras mulheres. Lembremos que quem criou o conceito de ‘sexo oposto’ foi o próprio patriarcado, como se fôssemos espécies distintas. Portanto, não percamos de vista os minutos de cada história privada. Elas compõem a história da humanidade. Desvendemos a verdade das histórias, as causas e as origens”.
Acho que por hoje nada mais direi — minha amiga disse por mim.
Lenise Lopes é professora doutora na Universidade Federal da Paraíba
