Aprender e praticar a CNV

Silvia Lá Mon

Conhecido como CNV, o método de comunicação não violenta foi criado pelo psicólogo Marshall Rosenberg nos anos 60, na época em que o movimento a favor dos direitos civis e
contra a segregação racial estava no auge nos Estados Unidos. Rosenberg trabalhava como
orientador educacional e durante esses conflitos era chamado para mediar situações diversas e ensinar técnicas de comunicação. A CNV acabou se tornando um método de trabalho bastante utilizado hoje em dia na educação, em empresas, associações e em qualquer espaço onde existem várias pessoas reunidas com um objetivo em comum.

Podemos resumir esse processo como uma forma de levarmos em conta as nossas necessidades e as do outro, para que sejamos capazes de emitir nossas opiniões sem ferir o outro, assim como ouvir o que ele tem a dizer, sem nos sentirmos ofendidos. Sabem aquela história de você ser mal atendido por alguém e, ao invés de reclamar, parar e pensar empaticamente que talvez aquela pessoa esteja num dia ruim? Então a agressividade se dissipa, e você é até capaz de lhe devolver uma resposta educada, um sorriso ou uma palavra de conforto. Dessa forma, todos saem mais leves.

Rosenberg nos ensina quatro passos que nos ajudam a ter conversas mais saudáveis: observação, sentimentos, necessidades e pedidos. Numa situação difícil qualquer, podemos iniciar o diálogo pontuando o fato de maneira objetiva e descritiva, sem julgamento, interpretação ou crítica. Em seguida, expressamos como estamos nos sentido com o ocorrido (de novo, sem julgar, somente expressando seu sentimento). Então podemos pontuar ao outro qual a minha necessidade nessa situação, ou seja, expressar o que preciso que o outro considere, e em seguida fazer um pedido a ele para reparar a situação, considerando que o outro também tem o direito de recusar.

Minha formação é humanista, e a linha que escolhi e na qual me baseio é a relação da
psicoterapia rogeriana ou centrada na pessoa. Carl Rogers, psicólogo americano que atuou desde os anos 30, foi um expoente de seu tempo, tendo sido indicado ao prêmio Nobel da Paz. O método terapêutico que desenvolveu tem como princípios básicos a autenticidade e a empatia, acreditando no crescimento inato do indivíduo e em sua autorresponsabilidade. Utiliza como uma das técnicas o espelhamento de emoções. Citei Rogers porque Marshall Rosenberg bebeu de sua fonte de conhecimento. Foi seu aluno e amigo, e sua teoria influenciou profundamente o desenvolvimento da comunicação não violenta, que buscou aplicar esses princípios na resolução de conflitos e promoção da conexão humana.

Em nossa sociedade atual, de valores invertidos e com visões radicais e opostas, a CNV
parece ser uma prática de importância vital para a manutenção da civilidade, restauração
dos valores e aprendizado para as futuras gerações. Seria como sairmos da condição reptiliana de reagir instintivamente e trazermos nossas respostas para o nível do neocórtex, com respostas conscientes, que nos elevam ao plano de exclusividade da raça humana. Através da prática de uma escuta ativa e afetiva, as interações podem ocorrer com mais respeito e empatia.

Que sonho seria essa sociedade... Que sonho seria se esse método fosse amplamente ensinado e desenvolvido, gerando um mundo mais justo, pacífico e cooperativo. Parodiando o velho Raul Seixas: sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade!


Silvia Lá Mon é psicóloga

silvialamonica15@gmail.com