As velas que o Holocausto não apagou...
O convite para falar sobre o Holocausto Judeu me pega de surpresa e desperta um forte senso de responsabilidade. Sou brasileiro e parte do povo judeu numa época extremamente conturbada, em que o antissemitismo (corrente ou atitude política de aversão aos judeus) volta a se manifestar de variadas formas. Exatamente, por isso, é fundamental relembrar o Holocausto, especialmente a todo 27 de janeiro, como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Daniel Hamer Roizman
O convite para falar sobre o Holocausto Judeu me pega de surpresa e desperta um forte senso de responsabilidade. Sou brasileiro e parte do povo judeu numa época extremamente conturbada, em que o antissemitismo (corrente ou atitude política de aversão aos judeus) volta a se manifestar de variadas formas. Exatamente, por isso, é fundamental relembrar o Holocausto, especialmente a todo 27 de janeiro, como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
A perseguição aos judeus, surgida ainda na Antiguidade, teve sua faceta mais brutal e mórbida no Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ao mesmo tempo, sinto-me encorajado por esta pauta sugerida pela equipe editorial do JORNALZEN, que a considera relevante a seus leitores.
Começo lembrando que, no Brasil, é crime negar o Holocausto e/ou exercer e manifestar atitudes que refletem antissemitismo, palavra legalmente definida como uma forma de racismo. O Holocausto é um massacre deliberado de cerca de 6 milhões de judeus, representando cerca de um terço do povo exterminado em campos de concentração nazistas e áreas da Europa com o objetivo praticar limpeza étnica e genocídio. Ao longo da história, o antissemitismo praticou acusações de deicídio, isto é, o assassinato de Jesus (que também era judeu); de riqueza e avareza, o que levaria os judeus a se tornarem donos da economia mundial e subjugar outros povos; de controle da informação por meio do monopólio da mídia; de que seriam uma raça infecta e inferior, segundo o discurso nazista; e de que o povo judeu não teria o direito de ter um Estado próprio ligado a suas origens ancestrais, ou seja, negavam a este povo o direito de Israel existir sob a forma do antissionismo, ou a oposição à existência do Estado de Israel e ao sionismo, o movimento que defende a autodeterminação judaica em sua terra ancestral.
Particularmente, vivi episódios antissemitas em épocas e locais inusitados. Por exemplo, no clube judaico A Hebraica, em São Paulo, em um canto da parede da quadra de esportes apareceu a pichação “judeu é igual a rato”, possivelmente escrita por algum visitante, a qual é, claramente, uma manifestação de ódio que busca desumanizar aquele/a por quem se tem alto desprezo. Outra situação marcante ocorreu quando estava de férias em um hotel no Rio de Janeiro e um rapaz, ao saber que eu era judeu, começou a se vangloriar do seu avô, que havia matado judeus nos campos de extermínio nazista. Ao invés de se envergonhar dos atos do avô e manifestar culpa ou simplesmente ficar calado, ele precisou exibir o suposto mérito do avô assassino, em uma tentativa de me intimidar. O tema é amplo, mas o fato é que o racismo NUNCA se justifica mesmo quando legitimado por algumas hipóteses (infundadas), como por exemplo que...
- o antissemitismo se nutre da inveja frente aos judeus por serem uma comunidade milenar conhecida como o povo do livro, ou seja, cuja profunda relação com a Torá, livro sagrado, guiou sua história. Na vanguarda da civilização monoteísta essa relação trouxe valores presentes até hoje na cultura humana.
- por ser um povo muito pequeno (não chega a 0,02% da humanidade), nós nos ajudamos mutuamente de modo a evitar que nossos membros passem fome e/ou necessidades básicas, o que porventura geraria revolta em quem não se sente beneficiado desse sistema solidário.
- proporcionalmente, o número de cientistas, artistas, filósofos e outras mentes notáveis é estatisticamente maior de que em outros povos e culturas. Tal aspecto poderia gerar ideias conspiracionistas e um sentimento de inferioridade.
Por mais que os judeus tenham particularidades e sejam apenas humanos imperfeitos, NADA justifica o racismo antissemita e, tampouco, qualquer outro tipo de racismo e/ou preconceito. Nesse sentido, lembrar o Holocausto é uma via fundamental para refletirmos sobre nós mesmos enquanto seres humanos. Mesmo passadas décadas desde o Holocausto, essa tragédia ainda deve ser considerada um problema humano amplo e que, portanto, merece atenção e reflexão: qual é a nossa relação conosco mesmos e com nossos semelhantes? A quem se mata, de fato, quando se assassinam pessoas, povos, culturas e religiões? Para o judaísmo, todos nascemos como as chamas de uma vela. Cabe saber usar essa luz visando clarear a escuridão. Para tanto, usemos o livre-arbítrio. Não nos deixemos dominar pelo ódio. Vamos transcender a soberba e a sede de domínio. É mister desenvolver o elo espiritual entre os povos e pessoas. Nesse sentido, que possamos retomar nossa energia vital e acender a chama da vela interior para que ela ilumine o mundo — que é de todos/as.
Daniel Hamer Roizman é psicólogo e mestre em Psicologia Social. Autor de A psicanálise das experiências anômalas: desdobramentos do estranho (Zagodoni Editora, 2025). Membro do Programa de Pesquisas em Experiências Não Ordinárias e Estados Alterados de Consciência da USP.
