Autismo feminino: diagnóstico tardio e dor da máscara
Escrevo este texto sob o impacto de uma exaustão que não se cura com sono, mas com o direito de não precisar mais fingir. Enquanto o mundo celebra o “Abril Azul” da conscientização sobre o autismo, eu vivencio o cinza de uma sala de aula onde as letras no quadro são borrões e a voz do professor é um ruído que meu cérebro não consegue mais processar.
Maria Lis Cardoso
Escrevo este texto sob o impacto de uma exaustão que não se cura com sono, mas com o direito de não precisar mais fingir. Enquanto o mundo celebra o “Abril Azul” da conscientização sobre o autismo, eu vivencio o cinza de uma sala de aula onde as letras no quadro são borrões e a voz do professor é um ruído que meu cérebro não consegue mais processar. Ser uma mulher transgênero autista com diagnóstico tardio é viver em um estado de masking constante — uma camuflagem para parecer típica que consome toda a nossa energia vital. Mas o que acontece quando o corpo, já castigado por doenças crônicas e pela perda de visão, diz que não pode mais suportar o peso dessa máscara?
Para que minha avó e qualquer leitor entenda: o autismo não é apenas um jeito de ser, é um jeito de processar o mundo relacionado ao desenvolvimento do cérebro e afeta aspectos da comunicação, linguagem, comportamento e interação social, que custa caro para quem vive o autismo no corpo. No meu caso, esse custo é físico e literal. Anos tentando “atender às metas” e não parecer “preguiçosa” ou “desinteressada” cobraram seu preço em forma de fibromialgia e problemas renais que se agravaram com o tempo. Recentemente, após uma cirurgia no olho para tentar recuperar parte dos 80% de visão que perdi, enfrentei um paradoxo cruel: com a volta da luz, meu cérebro que se adaptou a guiar-se pela audição e pela memória para manter minha autonomia, agora entra em colapso tentando entender distâncias e profundidades. Para ouvir e compreender uma explicação, eu preciso fechar os olhos. A claridade compete com a cognição.
Essa realidade é ignorada nos ambientes que deveriam nos acolher. Na faculdade pedir que aumentem a letra no quadro não é um capricho, é uma condição de existência. Quando o ajuste não é feito de forma discreta e sistêmica o que se cria é um “palco” de exposição que ninguém quer ocupar. Se a aula parar porque a “Maria quer letra maior”, a inclusão falhou. A acessibilidade real deve ser silenciosa; ela deve estar lá antes de eu chegar. Quando saio da aula no intervalo porque não consigo mais conectar o que ouço com o que não vejo, não estou desistindo do conhecimento, estou sobrevivendo a um sistema que tenta me enfiar um padrão que meu corpo não suporta mais.
O saudável para mim, hoje, não é voltar a ser a pessoa que “dava conta de tudo”... o tempo mostrou que esse foi um processo de autodestruição. O saudável é aceitar que minha casa interna está sem energia e que o “apagão” é um sinal de que o limite foi atingido. A verdadeira consciência social é entender que, por trás de uma mulher que parece “funcional”, pode haver um corpo gritando por socorro e um cérebro prestes a derreter. Viver dói mais forte quando o mundo se recusa a ajustar o foco para nos enxergar. Criado em 2007 pela ONU e instituído no Brasil pela Lei 13.652/2018, o Dia Mundial e o Dia Nacional de Conscientização sobre o Autismo são celebrados em 2 de abril.
Maria Lis Cardoso é jurista
