AUTOCUIDADO & BEM-ESTAR
Jackeline Susann
O poder de dizer “sim”
Circula na internet um vídeo que faz uma analogia sobre o que é o consentimento sexual, relacionando-o ao ato de aceitar uma xícara de chá. Em resumo, se uma pessoa aceita tomar um chá, ela pode mudar de ideia e desistir a qualquer momento, sem que isso seja motivo de estranhamento para o outro. Ela aceitou, mas a qualquer momento pode recusar a bebida. Ou seja, a vontade inicial de tomar um chá não é razão suficiente para obrigar alguém a consumir a bebida.
Obviamente, se a pessoa está inconsciente, não faz sentido oferecer o chá enquanto ela dorme porque uma pessoa dormindo não tem poder para consentir ou recusar! Situações como essas aparecem no vídeo (https://youtu.be/xkekbNLeEEU?si=VJsF8lPiQwbypz-b).
Qual é a lição que essa história traz? Simplesmente, o uso da palavra sim. Ou, melhor dizendo, o respeito ao consentimento do outro/a, seja para tomar chá, seja para fazer sexo.
O consentimento é um elemento essencial da liberdade feminina e não representa apenas o uso do sim falado. Mais que isso, consentir é quando o que aceitamos e concordamos vem acompanhado do nosso consentimento interno, ou seja, quando realmente sentimos que é aquilo que queremos e falamos sim para tal situação sem que seja apenas para agradar alguém ou por convenção social. Do mesmo jeito, o silêncio do outro não pode ser interpretado como um sim. No exercício de autocuidado, fortalecer o poder de voz ajuda na hora de tomar decisão e a dizer sim ao que de fato é desejado.
A pergunta fundamental é: o que você sente diante de tal situação? Se esse questionamento não clarifica, mude a pergunta para “Sinto-me realmente confortável em aceitar o que me propõe?”. Se a resposta é positiva, siga a sua intuição. Mas, se a pergunta gera dúvida ou a resposta interna é não, externalize a negativa. Não deixe o receio ou medo dominar você nessa hora, porque pagamos um preço alto por tentar agradar o outro, quando agradar passa por cima dos nossos sentimentos.
Quem, de fato, tem apreço por nós, entende quando falamos “não” sem questionar a nossa decisão ou exigir justificativa. É importante entender que consentir é um exercício que se aprende, adquirido no cotidiano ao observar nossa reação interna frente ao pedido do outro. Primeiro: pensar. Segundo: aprender a ler os sinais do corpo antes que a mente os racionalize, para assim, responder a uma solicitação. Se precisar de mais tempo para pensar, expresse. Sem medo! O sim não deve se converter em uma dívida ou um fardo, mas ser o resultado do ato de autoconhecimento.
O consentimento alinhado às nossas escolhas traz uma sensação de que estamos realizando a coisa certa. Mesmo que seja uma decisão difícil, a mente começa a relaxar, diminuindo a tensão entre o estômago e o cérebro. O consentimento real manifesta-se com clareza imediata, diferente daquela tensão nos ombros ou aperto no peito de quando realizamos algo que não é desejado. O consentimento gera uma energia que direciona o agir, o seguir, o continuar... É nisso que está o poder do sim. É quando você quer estar em um lugar ou em uma situação e o corpo libera um entusiasmo natural e torna a experiência prazerosa. Tal situação é um indicativo que você está inteira ali. Há um conforto emocional. Você se sente seguro não apenas com os demais, mas principalmente consigo e, se está segura, seu equilíbrio interno está preservado, e sua qualidade de vida garantida. Pense nisso cuidadosamente antes de manifestar “sim”...
Profa. Dra. Jackeline Susann Souza da Silva. Universidade Estadual do Ceará. Autora do livro 31 dias de autocuidado: um livro prático.
