AUTOCUIDADO & BEM-ESTAR

Jackeline Susann

O perigo de uma história única


“É assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna. Quando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca existe uma história única sobre lugar nenhum, reavemos uma espécie de paraíso”

(Chimamanda Ngozi Adichie).


É comum o nordeste brasileiro ser retratado em novelas e filmes como um lugar sem esperança com cenários de seca e pobreza extrema. O filtro amarelado da tela, o sol desolador, o chão rachado, as vestimentas esfarrapadas e o sotaque simulado dos personagens perpetuam, no imaginário coletivo, uma representação limitada e carregada de estereótipos sobre tal região do país. Mas quem narra o que é Nordeste? Quem cria tais imagens? A representação nacional dessa etnografia poderia ser diferente?

Para pensar sobre esses aspectos, a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chama a atenção para o perigo de uma história única. Ela reflete sobre como construímos referências acerca de povos, culturas e lugares por meio de uma representação dominante, disseminada pela mídia de massa. Chimamanda alerta para a necessidade de ouvir mais de uma versão sobre os fatos.

Na vida cotidiana, quantas vezes julgamos precipitadamente alguém porque “nosso santo não bate”, devido a uma informação negativa de terceiros acerca desta pessoa? Ao conhecê-la melhor, distante da percepção negativa inicial, mudamos até de opinião. Quantas vezes, também, escolhemos subjetivamente um lado da história, quando escutamos as partes afetadas em uma situação de conflito.

É importante ressaltar que não são apenas os outros que contam uma história única sobre nós. Não estamos isentos de reproduzir uma visão simplificada sobre o desconhecido. Como bem diz Chimamanda, o ato de narrar o mundo, por mais espontâneo que pareça, constitui relações de poder. Por exemplo, quando uma história é legitimada pelo viés do heroísmo de uma nação, sem ênfase ao custo de um fracasso de um povo. Nessa conjuntura, não há neutralidade na escolha discursiva. É justamente para ampliar a visão sobre os discursos acerca das fronteiras humanas e geográficas que a obra de Chimamanda é relevante.

Seu livro revela que ela começou a sua jornada de escritora aos 7 anos de idade. Mas algo de estranho acompanhou seu processo criativo de escrita: quando ela imaginava o que escrever, logo surgiam na sua mente personagens de cor branca, que comiam frutas vermelhas em um lugar frio. Nada disso estava presente na realidade vivida por ela na Nigéria. Para a autora, tudo mudou quando ela começou a ter acesso a livros africanos. Sua escrita passou por um processo de transformação radical: Chimamanda começou a escrever sobre a sua realidade e se reconhecer no texto. Isso não significou parar de ler literatura europeia ou latino-americana, mas ressignificar o olhar sobre si e sobre o seu lugar no mundo. Abriram-se novas perspectivas sobre aquilo que era familiar, mas que não estava legitimado nos livros.

A autora destaca: “percebi que pessoas como eu, meninas com pele cor de chocolate, cujo cabelo crespo não formava um rabo de cavalo, também podiam existir na literatura” (p. 13-14). O acesso à literatura africana, para Chimamanda, a salvou de conhecer uma história única sobre os livros. Havia outros mundos, outras pessoas e outras histórias para contar, inclusive a sua. Um caminho de escrita atravessado por identidade e pertencimento para além do que é considerado como Grande Literatura Universal.

A história do lugar de origem de Chimamanda é tão plural como o nordeste brasileiro: onde a memória vence o apagamento e o povo recusa-se a aceitar a história contada por quem apenas nos olha de longe.


* ADICHIE, C. N. O perigo de uma história única. Tradução: Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


Dra. Jackeline Susann Souza da Silva é professora adjunta na Universidade Estadual do Ceará (Uece).

jackelinesusann@gmail.com


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