AUTOCUIDADO & BEM-ESTAR
Jackeline Susann
Trinta de abril: celebramos o Dia Nacional da Mulher, instituído em 9 de junho de 1980 com uma lei que unifica a data nacional ao Dia Internacional das Mulheres: 8 de março. Um dia para a celebração das mulheres é uma forma pública de reconhecimento da luta por igualdade de direitos. Esta é também uma forma de chamar atenção à necessidade de transformação da sociedade para a eliminação de todas as formas de violência e discriminação contra nós, mulheres. Mas, como podemos modificar o mundo para torná-lo um lugar mais justo e igualitário para a diversidade de mulheres? É preciso mudanças governamentais e promoção de transformações culturais para ocorrer o reconhecimento do nosso valor, de nossos direitos humanos e, também, de nosso importante papel social. Tal reconhecimento passa, necessariamente, pela visibilidade da atribuição — quase que única à mulher — da responsabilidade de exercer o cuidado social, historicamente, reconhecido como uma função feminina. As teorias feministas, hoje focadas na análise crítica sobre a divisão social do trabalho, contestam a atribuição de papéis específicos para homens e mulheres, definidos de modo arbitrário.
A pergunta principal da teoria do cuidado é: quem cuida? Mas eu questiono: por que o cuidado com o outro, consigo e com o mundo é importante para a sociedade?
Na tradição histórica, seja no âmbito doméstico, seja nas relações laborais, as mulheres ocupando posições hierárquicas distintas são as responsáveis por assumir as tarefas do cuidado, tanto nos espaços privados (por exemplo, na atenção aos filhos, aos pais, mães, avós, etc.) e nos espaços públicos como no trabalho em ocupações feminilizadas, tais como, professoras, enfermeiras, cuidadoras de idosos/as e assistência social. O imaginário coletivo tradicional, portanto, delega o domínio do exercício do cuidado à “natureza constitutiva” das mulheres, o que não acontece de igual maneira na socialização dos homens.
O trabalho do cuidado demanda muito tempo de dedicação de nós, mulheres, que somos iniciadas a aprender e incorporar o “cuidar do outro” desde a infância quando brincávamos de cuidar de bonecas... ou fazíamos comidinha. A responsabilização social do exercício contínuo do cuidado, por incrível que pareça, ainda é invisível no século XXI, uma vez que essas atribuições ainda são delegadas subjetivamente às meninas e às mulheres, como se esta função fosse uma característica intrínseca e natural da nossa identidade de gênero. Pior: o desempenho do cuidado é subestimado por ser considerado supérfluo para a vida coletiva, percepção social que é um grande equívoco já que a sociedade só existe como tal porque há um sistema de cuidado que sustenta essa estrutura social.
O Dia das Mulheres não deve ser apenas uma data, mas um convite para refletir sobre o papel das mulheres no mundo. O cuidado compartilhado como uma responsabilidade humana, de homens e mulheres, é uma dimensão importante na construção de um mundo mais justo e igualitário para todos(as). Nesta coluna, quero convidar você mulher — e quiçá seus parceiros — para construirmos um processo interno de transformação por meio de uma profunda reflexão sobre os aspectos externos e os limites sociais que estão implicados no nosso cotidiano como mulheres, justamente para que o cuidado do outro, o cuidado do mundo e o cuidado de si não sejam mais entendidos como ações isoladas e individuais, mas como uma ação social e política.
Profa. Dra. Jackeline Susann Souza da Silva. Universidade Estadual do Ceará. Autora do livro 31 dias de autocuidado: um livro prático.
