Autossustentabilidade do ser
Maribel Barreto
Convidamos você a ampliar o olhar para uma sustentabilidade que ultrapassa o campo do discurso, se enraíza na consciência e se manifesta em práticas cotidianas, as quais promovem equilíbrio, continuidade da vida e responsabilidade compartilhada entre o ser humano, a sociedade, a natureza e o planeta. Trata-se de uma sustentabilidade sistêmica, que reconhece a interdependência entre a economia, a sociedade, a cultura, ambiente, educação e também aspectos humanitários, porque nada existe de forma isolada no Universo.
Fritjof Capra (2014) nos lembra de que “quanto mais estudamos os principais problemas do nosso tempo, mais percebemos que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes.” Ou seja, para solucionar um problema, é preciso dar-lhe plena atenção e compreendê-lo inserido em seu contexto particular, só assim é possível transformar a cultura que o gerou.
Sustentabilidade, portanto, não se resume a cuidar dos recursos naturais para não comprometer as gerações futuras. É necessário direcionar a atenção para aquilo que sustenta o Ser porque somos a composição de sentimentos, pensamentos e atos. Contudo, são os nossos atos que efetivamente nos sustentam, o que torna essencial construir a autossustentabilidade, pois é ela que confere sentido à vida.
Autossustentar-se significa vivenciar conscientemente o próprio “Sersendo”, nas dimensões física, mental e espiritual. No que se refere à sustentabilidade física, destaca-se o cuidado com o corpo, nosso maior bem material. Para isso, é necessário promover atividade física regular, aliada a uma alimentação equilibrada, com escolhas mais naturais, que favorecem o equilíbrio biológico e reduzem a exploração excessiva da natureza.
Quanto à sustentabilidade mental, torna-se indispensável oferecer “alimento” à inteligência por meio do exercício do saber pensar, utilizando a imaginação com consciência. À medida que a qualidade do pensar se aprimora, amplia-se também a percepção sobre as causas e consequências das próprias ações, tornando-as mais precisas e gerando menos desequilíbrios nas relações cotidianas. Nesse sentido, mudar os pensamentos é transformar o próprio mundo.
Já a sustentabilidade espiritual refere-se à busca contínua de autorrealização. Ela se constrói no cotidiano, a partir da integração entre sentir, pensar e agir, sendo fruto de exercícios de centração, como a meditação, que possibilitam a prática da atenção plena, vigilância constante e percepção inabalável diante dos desafios das relações diárias. Uma pessoa menos fragmentada tende a agir com maior equilíbrio individual e social.
Desse modo, o meio ambiente interno determina, de forma direta, a maneira como o ser humano atua no meio ambiente externo. Não é possível falar em preservação da natureza e uso consciente dos recursos sem considerar o nível de consciência de quem age sobre ela. A sustentabilidade do planeta passa, inevitavelmente, pela sustentabilidade do ser humano. Praticar a autossustentabilidade é, portanto, um exercício contínuo de Consciência.
Profa. Dra. Maribel Barreto é escritora e embaixadora da Paz pela UPF/ONU.
