Conexão com a ancestralidade

Silvia Lá Mon

Neste mês comemoramos em 21 de fevereiro o dia do imigrante italiano. Eu sou filha de siciliano. A Sicília, para quem não sabe, é uma grande ilha situada no extremo sul da Itália. Meu pai veio para o Brasil com mais três amigos, no auge de sua juventude, em busca de uma vida nova.

Desde criança eu via meu pai escrevendo cartas para sua mãe e irmãos, e o via chorando cada vez que recebia uma notícia de lá. Eu achava engraçada a forma como ele falava: era muito amoroso, mas também muito bravo. Na adolescência, isso foi um grande problema para mim, que também tinha sangue siciliano correndo nas veias, e o confronto era inevitável. Ao mesmo tempo, ele era meu protetor. Era como se nada pudesse me atingir, pois ele estava sempre disposto a me defender, em qualquer situação. Nossa educação e nosso cotidiano familiar eram bem característicos da cultura siciliana, mas isso não era falado, não era explícito, era algo intrínseco em nossas vidas. Ele não falava muito sobre seu país ou como era sua vida e nunca nos ensinou a falar italiano. Hoje, penso que isso ocorreu porque ele realmente veio para viver uma nova vida e se integrou totalmente à nossa cultura.

Aos 31 anos, eu fui com meu pai para a Sicília, aonde ele me levou para conhecer a família. E foi um divisor de águas na minha vida, porém só fui entender a importância daquela conexão real depois que conheci a constelação familiar sistêmica, de Bert Hellinger. Foi nessa ocasião que aprendi a me conectar com minhas raízes e sentir a força da ancestralidade que nos sustenta e também, por outro lado, sentimentos e cargas que continuamos a carregar, de maneira inconsciente, das dores e dificuldades que as gerações passadas tiveram que passar para que o clã tivesse continuidade.

Como meu pai fez comigo, eu fiz com minha filha, e em 2018 a levei para conhecer a família na Sicília. Foi então que a magia aconteceu... Ela sentiu instantaneamente a sua conexão com o lugar de origem de seu nonno e decidiu fazer o caminho de volta dele. Está há seis anos morando na Sicília, onde vem construindo seu legado, realizando-se tanto profissional quanto pessoalmente. A neta do imigrante emigrou de volta em busca de uma vida nova, e assim o círculo se completa. Quanto a mim, me sinto no meio desse caminho, entre esses “dois mundos”, saboreando a dor e a delícia que cada uma dessas culturas me traz e consciente das teias invisíveis que nos conectam e nos guiam em nossa existência, onde tudo faz sentido. Tudo tem um significado oculto, e a nós nos cabe fluir de acordo com o propósito maior, traçado há muitos éons de existência.

Concluindo, o dia da imigração tem um significado muito mais profundo para mim do que uma simples data, e é assim para milhões de brasileiros de origem italiana. Somos a maior comunidade no mundo e, com certeza, cada um de nós tem uma história de alegrias e perdas em suas origens, esperando para serem reconhecidas, honradas e ressignificadas. Daí a importância que acredito ter o método terapêutico de Bert Hellinger. Todas as pessoas e seus clãs merecem essa reconexão! Coloco-me à disposição do leitor que tenha interesse em saber mais a respeito dessa terapia ou se quiser se permitir passar por essa experiência.

Silvia Lá Mon é psicóloga

silvialamonica15@gmail.com