CONFRARIA DA MENTE

Andrés De Nuccio

Por que a culpa não some?


Existem pessoas que carregam dentro de si a culpa de uma decisão tomada por dez, quinze, vinte anos. Já foram à terapia. Já leram sobre perdão. Já fizeram as pazes com a decisão, pelo menos na superfície. E ainda assim, em uma noite quieta, como se o tempo não tivesse passado, a culpa volta com a mesma força e nitidez de sempre. Mas por quê? Porque o problema não está na decisão tomada, mas na premissa escondida dentro do sentimento de culpa.

A culpa carrega uma afirmação que raramente é dita em voz alta, mas que está sempre lá, operando por baixo: “Eu poderia ter feito diferente”. E, se eu poderia ter feito diferente, então eu fiz a escolha errada, eu falhei e mereço “carregar isso”. Parece lógico, mas é uma ilusão...

Pense no momento exato em que aquela decisão foi tomada. Não pense do lugar onde você está hoje, com tudo que aprendeu depois da decisão tomada, com a distância do tempo e a clareza que só o resultado traz. Pense naquele momento específico da tomada de decisão: o que você sabia? Quais eram seus recursos emocionais, financeiros, relacionais? Que crenças você carregava? Que medos operavam por baixo? Que informações você tinha acesso, e quais estavam fora do seu alcance?

Nenhum de nós decide no vácuo. Decidimos sempre a partir de um conjunto de condições que não escolhemos inteiramente: a história que carregamos, o conhecimento que temos até ali, os recursos disponíveis naquele instante, o estado emocional daquele dia, as influências de pessoas e circunstâncias que nem percebemos. Com tudo isso, você tomou a melhor decisão que era possível tomar no momento em que foi tomada, e não a melhor decisão imaginável; mas a melhor decisão possível para aquela pessoa, naquele momento, com aquela mente. Se você pudesse ter feito diferente, teria feito. O fato de não ter feito é a evidência de que, naquele instante, não havia como.

A culpa não some porque exige que você aceite algo difícil. A culpa não desaparece porque você é humano, limitado, parcial, e que isso não é uma falha de caráter. A culpa é a condição de qualquer ser que existe no tempo, com recursos finitos e conhecimento incompleto. Por isso, “soltar a culpa” não é se absolver de responsabilidade, mas reconhecer que responsabilidade não é a mesma coisa que onipotência.

Há uma prática simples que pode ajudar, especialmente diante de decisões importantes. Antes de decidir e colocar a decisão em prática, escreva. Anote a decisão, as variáveis que você considerou, as informações às quais tem acesso naquele momento, as razões que pesaram de um lado e do outro. E escreva, com todas as letras: “com os recursos, o conhecimento e as condições que tenho agora, esta é a melhor escolha que consigo fazer”. Não é burocracia. É um ato de honestidade com o futuro. Porque, quando as coisas não saírem como o esperado — e, às vezes, não saem —, você vai ter em mãos a prova de que fez o que era possível. Não o que era perfeito; o que era possível. E essa diferença, vista com clareza, é o que dissolve a culpa antes que ela se instale.

Você não se perdoa porque, no fundo, acredita que deveria ter sido outra pessoa. Mas você só poderia ser quem era, com tudo o que isso inclui... Aceitar essa condição, curiosamente, é o começo de uma relação mais honesta e mais gentil consigo mesmo.


Andrés De Nuccio é psicólogo, professor de meditação e criador da Confraria da Mente

diretor@isvara.com.br


Informar para transformar

Jornalismo positivo há 20 anos.

CONTATO

contato@jornalzen.com.br

© 2025. All rights reserved.