CONFRARIA DA MENTE

Andrés De Nuccio

Por que você age contra si mesmo


Se você já se pegou fazendo exatamente o que não queria fazer, saiba: você não está sozinho(a)... E, não há nada de errado com você!

Existe algo que quase todo mundo experimenta em algum momento da vida e que carrega um peso desnecessário de vergonha. Por exemplo, a decisão tomada e desfeita, o hábito abandonado na terceira semana, a conversa que você ensaiou mentalmente e não teve, o passo que estava pronto e não saiu... Por baixo de tudo isso, uma pergunta que dói mais do que deveria: por que eu faço isso comigo?!

As respostas mais comuns cruel e equivocadas são: fraqueza, falta de disciplina, falta de vontade. Como se o problema fosse um defeito de caráter que você precisa vencer com mais força, mais rigor, mais cobrança. Não, não é isso! O que acontece é mais sutil e, quando entendido, muito mais compassivo. Você age contra si mesmo não por fraqueza. Age por fidelidade. Fidelidade inconsciente a uma imagem de si mesmo que foi construída ao longo de anos, às vezes décadas, a partir de experiências, de palavras ouvidas, de conclusões tiradas sobre quem você é e o que você merece. Essa imagem opera por baixo de tudo. Silenciosa, invisível, poderosa que se manifesta quando você tenta agir de forma diferente, isto é, quando tenta dar um novo passo algo dentro de você puxa de volta. Não por maldade, mas por coerência porque o sistema quer permanecer consistente com a história que conta sobre si mesmo.

Se, no fundo, você carrega a crença de que não merece o que deseja, vai sabotar o que deseja. Se acredita que sucesso é perigoso, vai recuar quando ele se aproximar. Se aprendeu que demonstrar necessidade é fraqueza, vai se isolar exatamente quando mais precisar de conexão. Veja, não é loucura, é lógica, uma lógica antiga, formada antes que você tivesse discernimento para questioná-la. E aqui está o que importa: essa crença não é você. É algo que você aprendeu e, óbvio, o que foi aprendido pode ser revisto de transformado. Não de uma vez. Não com violência contra si mesmo. Mas com paciência, com presença, com a disposição de olhar para essa voz interna com curiosidade em vez de vergonha. Perguntar: de onde vem isso? Quando aprendi que era assim? Isso ainda é verdade para mim hoje?

Você não age contra si mesmo por fraqueza. Age por fidelidade a uma versão antiga de quem você acredita ser. A transformação começa quando você percebe que pode atualizar essa versão. Que a identidade não é destino. Que o cérebro que foi moldado por certas experiências pode ser remoldado por experiências novas, por pensamentos novos, por escolhas repetidas com gentileza e constância. Você não precisa se vencer, precisa se conhecer, com afeto, com paciência. Tenha a certeza de que há, em você, algo muito maior do que qualquer crença limitante que o passado deixou para trás.


Andrés De Nuccio é psicólogo, professor de meditação e criador da Confraria da Mente

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