CONFRARIA DA MENTE

Andrés De Nuccio

Sentir e se perder no que sente


Há momentos em que a emoção chega e você... some. Já sentiu-se assim?

Não é metáfora, é o que acontece. A raiva entra e de repente não há mais “você que está com raiva”, há apenas a raiva. A ansiedade toma o quarto, a cama, o teto, o ar. A tristeza não visita: ela se instala, muda os móveis de lugar, age como se sempre tivesse morado ali. E quando a tristeza passa, às vezes horas, às vezes dias depois, você olha para trás com uma estranheza silenciosa. Quem era aquilo? Era você... e também não era.

Existe uma distinção que parece pequena, mas muda tudo: a diferença entre ser a emoção e perceber a emoção. Entre afundar na emoção e observá-la. Entre “estou com raiva” e “há raiva acontecendo em mim agora”. Não, não é um jogo de palavras. É a diferença entre ser o rio e ser a margem. O rio corre, transborda, carrega tudo. A margem permanece. Vê o movimento. Não nega a água, a observa. Sabe que a água é outra coisa. Acontece o mesmo com a gente: toda emoção tem uma testemunha ou alguém que percebe a emoção. Então, se você passa a observar a tristeza, você descobre que não é inteiramente a tristeza. Algo em você permanece acordado mesmo quando tudo parece escuro. Esse algo não é distância, mas uma presença de outro tipo, mais funda, mais quieta.

Sentir não é o problema. Sentir é humano e necessário, é a textura viva da existência. O problema é a identificação total, o momento em que a testemunha adormece e a emoção ocupa cada centímetro disponível, inclusive aquele de onde você poderia escolher uma resposta.

Como se parece alguém que aprendeu essa distinção?

Ela sente. Às vezes intensamente. Mas há um fio que não se rompe. Ela consegue estar no meio de uma conversa difícil e, ao mesmo tempo, notar que está ficando na defensiva. Consegue sentir o aperto no peito sem decretar que o mundo acabou. Consegue chorar de verdade e saber, lá no fundo, que o choro vai passar. Não porque nega a dor já que não se confunde com ela. Essa pessoa não é fria, ela é curiosamente mais presente do que a maioria. Sabe por quê? Porque quando você não tem medo de ser levado pela correnteza, pode entrar mais fundo na água. Pode sentir com menos defesa e maior inteireza, porque sabe que tem chão embaixo dos seus pés. Mas, ela também pode perder o fio às vezes... quando a emoção a vence e a testemunha some por um momento. Todavia, o retorno à posição de testemunha chega mais cedo. E sem culpa. Apenas o gesto simples, quase gentil, de voltar.

Então... você não é a tristeza, você é quem a percebe. E, esse milímetro de distância entre sentir e se dissolver no que sente é onde a liberdade mora. Não a liberdade de não sentir, mas a liberdade de sentir sem se perder.

Quando você lê minha coluna, como se sente? Minhas palavras ressoam em você? Então, eu lhe convido para conhecer mais da Confraria da Mente em meu site. Assine minha newsletter e receba semanalmente alimento para sua mente observadora...


Andrés De Nuccio é psicólogo, professor de meditação e criador da Confraria da Mente

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