Depressão e saúde mental

Ligia Splendore

Você já ouviu falar na depressão de fim de ano?

A depressão de fim de ano é um fenômeno psicológico frequente, embora não seja um diagnóstico formal. Ela se manifesta como tristeza, vazio, desânimo, solidão e ansiedade, intensificados pelo encerramento de ciclos, balanços existenciais, expectativas frustradas e pela pressão social para vivenciar esse período como alegre e bem-sucedido. O contraste entre a experiência interna e o discurso cultural dominante pode aprofundar sentimentos de inadequação, isolamento e não pertencimento.

Sob uma perspectiva simbólica, o fim do ano funciona como um rito de passagem que ativa processos internos profundos que pedem por uma autoavaliação de vida e trazem a oportunidade de se fazer novas escolhas a partir dos aprendizados adquiridos. Mas, esse momento pode trazer também sentimentos de perda, fracasso e até mesmo de morte simbólica. Quando esses movimentos não são reconhecidos ou elaborados, podem ser vivenciados como estados depressivos e angustiantes.

Essa experiência se aproxima do que São João da Cruz, místico, sacerdote e frade carmelita espanhol do século XVI, descreveu como A Noite Escura da Alma. ou seja, um período de vazio, abandono e perda de sentido que, embora doloroso, pode trazer um potencial de transformação. O psiquiatra tcheco Stanislav Grof, cofundador da psicologia transpessoal, amplia essa compreensão ao situar esses estados depressivos dentro das emergências espirituais, processos de desenvolvimento espiritual inerente ao ser humano, mas que pode se apresentar como uma crise psicoespiritual e trazer sofrimento profundo para quem passar por essas experiências. Na coluna passada, apresentei o conceito de emergência espiritual esclarecendo que essas vivências são muito mais comuns do que imaginamos e não são necessariamente patológicas. Pelo contrário, essas experiências podem sinalizar uma reorganização psíquica e espiritual relevantes para a nossa evolução e crescimento. Assim, em alguns casos, a depressão de fim de ano pode ser entendida como uma noite escura a alma, um momento de transição que exige acolhimento, reflexão e discernimento, podendo abrir caminho para revisão de valores, amadurecimento interior e renovação do sentido da vida.

Nesse contexto, a entrevista publicada em Dezembro/2025 pelo JORNALZEN, ao resgatar a figura de São Nicolau por trás do Papai Noel e recolocar no centro do Natal valores como compaixão, cuidado e fraternidade, oferece um contraponto simbólico ao esvaziamento de sentido que marca esse período e pode ser um convite para abrirmos espaço para a espiritualidade se fazer mais presente em nossas vidas não somente durante o Natal, mas durante o novo ciclo que se inicia em 2026.

O depoimento de R.O.P., experienciador do Repensando a Loucura, é um exemplo vivo de como uma perspectiva mais integral da saúde mental pode ajudar a ressignificar a depressão: “Estava em tratamento de uma depressão resistente há alguns anos, e a partir de uma cerimônia indígena — experiência de uma profunda conexão espiritual impossível de descrever em palavras, determinante em meu processo de cura —, pude ampliar meu entendimento sobre a depressão, não apenas como uma doença, mas também convite e oportunidade de olhar para questões que estavam adoecidas em mim das quais não tinha conhecimento, e assim restabelecer minha saúde em sua acepção integral.”


Ligia Splendore é psicóloga transpessoal e criadora do movimento Repensando a Loucura.

ligiasplendore@gmail.com