DIFERENÇAS X IGUALDADES

Maria Lís Cardoso

A humanidade por trás das letras


Aos meus 38 anos, compreendo que a sigla LGBTQIAPN+ não é um amontoado de conceitos abstratos, mas uma pauta composta por vidas humanas. Cada letra ali resguarda um filho, uma filha, uma mãe, um pai, um tio ou uma tia. São pessoas reais que amam, trabalham e buscam o direito de existir. Ao redor de cada identidade, há famílias e comunidades inteiras que crescem e vivem marcadas pelas dores, renúncias e resistências impostas pela exclusão social.

Viver essa experiência em um Brasil cuja maioria atual para ser conservadora e de matriz religiosa, impõe dilemas profundos que cortam a carne. No seio familiar, opera o medo constante do desamparo e da quebra dos afetos. Nos espaços de fé, a angústia silenciosa entre a conexão com a espiritualidade e o peso da rejeição e, na vida profissional, o esforço duplo e contínuo para que a competência técnica não seja sumariamente anulada pelo preconceito.

Assim, espero que possamos — finalmente — permitir que a fé, os laços de sangue e as trajetórias profissionais coexistam sob o manto de uma cidadania plena, reconhecendo-nos uns aos outros pelo que essencialmente somos: estritamente humanos:

L (Lésbicas): o dilema da construção do feminino em um mundo que desenhou o desejo para o homem. Ser lésbica é carregar a subversão do afeto onde a mulher ainda é disputada como objeto ou ignorada como sujeito. É o peso de uma visibilidade filtrada pelo voyeurismo alheio.

G (Gays): a luta constante entre a virilidade imposta e a vulnerabilidade exercida. O dilema é o “ser” versus o “parecer”, onde o homem que ama outro homem enfrenta o abismo de ter sua identidade questionada pela régua de uma masculinidade que se alimenta da exclusão e perversão.

B (Bissexuais): o paradoxo da invisibilidade em dose dupla. Ser bissexual é viver na fronteira, sendo questionado por ambos os lados. É o dilema de não ter seu pertencimento validado, como se a capacidade de amar mais de um gênero fosse inconstância, e não potência existencial.

T (Transgêneros/Transexuais/Travestis): aqui a carne é o campo de batalha. O dilema é a soberania sobre o próprio corpo contra a autorização do olhar público. Viver a experiência trans é conhecer o preço da autenticidade e transitar sabendo que sua existência recusa a rigidez social que não é mais aceitável no século XXI.

Q (Queer): a resistência à gaveta. O dilema do Queer é a recusa em ser rotulado em uma estrutura que precisa de rótulos para funcionar. É a estranheza que incomoda porque não se ajusta, não se explica e não pede licença para ocupar o espaço.

I (Intersexuais): a pluralidade natural do corpo. O dilema é nascer com características biológicas, genéticas ou anatômicas que não se enquadram nas definições típicas de masculino ou feminino. São vidas cujas existências desafiam barreiras biomédicas desde o berço.

A (Assexuais/Arromânticos/Agênero): a subversão do imperativo da performance. Em uma sociedade que mercantilizou o sexo e o romance, a assexualidade é o silêncio que incomoda. O dilema é ser visto como “incompleto” por quem não concebe uma existência sem o desejo sexual desenfreado.

P (Pansexuais): a amplitude que desafia o limite. A pansexualidade traz o paradoxo de enxergar o humano para além da casca do gênero. É o dilema de encontrar conexão onde a maioria só vê barreira, sendo incompreendido por definições mais estritas.

N (Não binários): a fluidez como protesto. O dilema é a exaustão de ter que se encaixar em um mundo que só reconhece o 0 ou o 1. É viver a consciência de que a identidade é um fluxo, enquanto o Estado e a sociedade insistem em congelá-la em expectativas fixas.

+ (Mais): a abertura ao contínuo. Representa outras orientações e identidades que compõem a diversidade humana e ainda não foram explicitadas na sigla, garantindo que nenhum sujeito seja deixado no esquecimento.


Maria Lís Cardoso é jurista e analista crítica do sistema de Justiça

marialiscardoso@gmail.com


Informar para transformar

Jornalismo positivo há 20 anos.

CONTATO

contato@jornalzen.com.br

© 2025. All rights reserved.