DIFERENÇAS X IGUALDADES

Maria Lís Cardoso

Responsabilidade compartilhada


Quinze de outubro. Dia do Professor... Essa data me faz refletir. Penso nos admiráveis professores que tive, eu acompanho suas trajetórias e penso no lugar deles(as) em minha formação humana.

Durante muito tempo, o(a) professor(a) ocupou um lugar social de autoridade e reconhecimento. A família confiava à escola parte da formação acadêmica dos filhos, sem deixar de compreender que educar também acontecia dentro de casa. Havia papéis distintos que se complementavam. A família oferecia referências, a escola organizava experiências de aprendizagem, o(a) professor(a) mediava o conhecimento e o(a) aluno(a) era o foco principal dessa interação. Ao longo de décadas, mudaram as famílias, mudaram as escolas, mudaram as crianças e também mudaram as expectativas depositadas sobre o/a professor(a).

A ampliação dessas expectativas não veio acompanhada de uma divisão igualmente clara de responsabilidades. A(o) professor(a) passou a ser designado(a) a ensinar conteúdos, administrar conflitos, sustentar questões emocionais, compensar dificuldades sociais, lidar com a diversidade e diferenças de sua turma e responder por resultados que, na verdade, são da responsabilidade de uma rede mais complexa e maior que envolve governos, sociedade, família, escolas, gestores(as) e professores(as). Mas não... Convenientemente, a professora passou a ser a responsável e a vítima do que acontece dentro e fora da escola.

A fragilização da rede ampliada gera um equívoco perigoso! A ineficiência do sistema educacional passa a ter um rosto que, frequentemente, é o do(a) professor(a). Ao mesmo tempo, algumas famílias passaram a compreender a escola como um lugar ao qual se entrega o filho esperando, ao final, o determinado resultado. Mas educação não é um serviço de delivery, e nem o ensino é um fast-food. A educação de qualidade resulta de uma construção relacional.

A neurociência mostra que o cérebro aprende na interação entre experiência, emoção, repetição, vínculo e ambiente. A aprendizagem não começa quando o/a aluno/a atravessa o portão da escola e nem termina quando volta para casa. Sono, rotina, segurança emocional, limites, estímulos, relações familiares e experiências escolares que participam da escolarização. Isso não significa retirar da escola sua responsabilidade, muito menos idealizar o papel docente. Significa, sim, reconhecer limites e reconstruir alianças.

Cabe à escola oferecer condições para ensinar. Cabe a/ao professora/or mediar caminhos para que o(a) aluno(a) aprenda. Cabe à família acompanhar, orientar e estabelecer referências. Cabe ao/à aluno(a), de acordo com sua idade e seu desenvolvimento, assumir progressivamente sua participação e sucesso escolar. Por isso, acredito que celebrar o Dia do Professor neste ano exija mais do que homenagens. Exige o resgate do sentido de comunidade escolar e do lugar docente nessa comunidade porque educar continua sendo um dos trabalhos mais profundamente humanos que existe. E, justamente por isso, nunca deveria ser um trabalho solitário, que vitimiza e torna o(a) professor(a) “bode expiatório” de um sistema educacional obsoleto, à/ao qual ainda não foi dado o devido valor ou reconhecido seu real papel no desenvolvimento da nação. Quando família, aluno(a), professor(a) e escola reconhecem seus papéis, a responsabilidade deixa de ser um peso transferido e volta a ser aquilo que a educação sempre precisou ser: um compromisso compartilhado.


Maria Lis Cardoso é analista do sistema de justiça

marialiscardososc@gmail.com


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