DIFERENÇAS X IGUALDADES
Maria Lís Cardoso
Orgulho LGBTQIAPN+ e Marie Curie
Neste mês de junho, duas datas se encontram no calendário para nos fazer refletir profundamente sobre o nosso papel no mundo e as estruturas invisíveis que moldam a existência humana: 28 é o dia internacional que marca o orgulho LGBTQIAPN+, e 18 é o Dia do Químico. À primeira vista, a ciência exata da Química e a luta pelos direitos humanos e de gênero parecem universos distantes, mas quando cruzamos essas celebrações de forma transdisciplinar, podemos entender que ambas as datas tratam da mesma urgência: desconstruir as forças ocultas que definem quem pode ou não ocupar certos espaços na sociedade.
Para compreender esse entrelaçamento, convido você a olhar para a trajetória de uma das maiores mentes da humanidade, Marie Curie: duas vezes prêmio Nobel (em Química e Física). Ela não foi apenas uma cientista brilhante que desbravou os segredos dos elementos radioativos, mas também foi uma mulher que vivenciou na pele as barreiras de um sistema que já determinava o valor de um indivíduo por interpretações que nada tinham a ver com sua capacidade.
Refletindo a partir do Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Gênero, publicado pelo Conselho Nacional de Justiça, a trajetória de vida de Marie Curie demonstra ao direito civil que o sistema social e jurídico determina diferentes resultados no julgamento do ato para diferentes indivíduos: quem é, seu lugar social, o que você faz, sua posição social, gênero e as expectativas tradicionais sobre corpos e identidades. É exatamente nesse ponto que a trajetória da cientista química se conecta profundamente à essência da data de 28 de junho.
Em 1969, houve a Revolta de Stonewall, um levante contra uma estrutura jurídica e policial que criminalizou e julgou pessoas puramente por quem elas eram: seu gênero, afeto e posição social. Assim como Curie lutou contra o preconceito de uma academia científica patriarcal, a comunidade LGBTQIANP+ enfrenta secularmente um tribunal social que tenta definir quem é digno de direitos e proteção no âmbito civil. Isso significa que as opressões de gênero e a discriminação por orientação sexual não desaparecem historicamente, mas se transformam em forças sutis e sofisticadas que operam na opacidade das relações cotidianas. As estruturas de desigualdade social funcionam como campos invisíveis que moldam o espaço-tempo em que nos movemos, criando barreiras energéticas para quem diverge do padrão normativo estabelecido.
Portanto, conectar o Dia do Químico através de Marie Curie ao dia internacional de 28 de junho nos obriga a expandir a nossa consciência de forma transdisciplinar, de forma a compreender que a ciência, o direito e as lutas de gênero fazem parte de um mesmo organismo vivo, onde o “Ser-sendo” busca sua libertação e expressão autêntica.
Celebrar junho no JORNALZEN, para mim, é mais do que uma data no calendário; é o espaço onde eu me sinto mais humana a cada coluna. Como parte do grupo social LGBTQIAPN+ e como jurista, peço a você leitor(a) que procure aprender e compreender que a revolução pelos direitos civis e humanos exige de todos(as) uma atitude cuidadosa, criteriosa e empática. Enfim... que possamos utilizar a luz da trajetória de Marie Curie e a coragem histórica do dia 28 de junho para enxergar e desintegrar as partículas silenciosas de preconceito que ainda tentam ditar as regras do nosso espaço-tempo social.
Maria Lís Cardoso é jurista e analista do sistema de Justiça
