E a alma, para onde vai após a morte?
O desejo humano de ser imortal é secular e parece universal. Quando eu contemplo a natureza olhando para o céu estrelado ou vislumbrando a imensidão da terra em um voo pelos ares, imagino que deveria haver um lugar para onde ir depois do último suspiro... Caso eu soubesse com certeza que a alma se separa do corpo e vai para outra dimensão, mudaria meu modo de ser e de viver?
Profa. Dra. May Guimarães Ferreira
O desejo humano de ser imortal é secular e parece universal. Quando eu contemplo a natureza olhando para o céu estrelado ou vislumbrando a imensidão da terra em um voo pelos ares, imagino que deveria haver um lugar para onde ir depois do último suspiro... Caso eu soubesse com certeza que a alma se separa do corpo e vai para outra dimensão, mudaria meu modo de ser e de viver?
Algumas pessoas ligadas às ciências e à psicanálise, como eu, preferem colocar essa questão no viés do mistério e protelar as tentativas de explicação da vida após a morte. É muito mais prático — e menos angustiante — fazer perguntas sobre o período entre o dia do nascimento e o dia da morte do que perscrutar a atmosfera celestial da alma imortal.
Na esfera da razão formal eu não consigo sistematizar logicamente na equação causa e efeito positivista, os fatores que comprovem a existência pós-morte. No entanto, nesse raciocínio lógico posso me valer da concepção dos mistérios que convocam o pensar além da base material da existência. É preciso estar atenta aos sinais que vibram ao meu redor, vindo de onde vierem, para abrir o pensamento para o infinito incognoscível.
Se tivéssemos certeza que, após a morte, a alma se separa do corpo e vai para outra dimensão, mudaríamos nosso modo de ser e de viver? Muitos filósofos se ocuparam dessa especulação do mundo ideal ou espiritual. Desde a Grécia antiga difundiu-se a ideia da separação da alma viajante para além do corpo. Platão chegou a dizer que a alma é imortal, pois não morre com o corpo. O corpo poderia até ser entendido como uma prisão da alma e possibilidades espirituais. A alma pertence ao mundo das idéias, que é eterno e imutável. Conduzida pela razão, a alma deveria controlar as emoções e desejos para poder alcançar a verdade.
Na Idade Moderna, René Descartes mudou a tradição medieval e lançou a dicotomia entre coisa e pensamento. As coisas poderiam ser pesadas e quantificadas na sua materialidade, mas o pensamento faz parte da imaterialidade humana. Através da imaginação ou do entendimento racional temos a necessidade de considerar a alma e a espiritualidade como uma dimensão pertinente ao humano. Sem alcançar um consenso nessa dualidade, somos portadores de asas da imaginação que nos permitem voar para a dimensão libertária da alma rumo à espiritualidade incognoscível.
Diversamente da busca da divindade para a alma, cuja meta se encontra no escopo de muitas tradições religiosas, o cristianismo inverteu a direção do encontro com o sagrado. Nessa visão, o próprio Deus se volta para a redenção da humanidade, em direção oposta às antigas religiões. A espiritualidade passa a ser de cima para baixo, pois o filho veio à terra para ser sacrificado, por amor, ao gênero humano.
Nesse sentido, a especificidade do cristianismo se revela na união do divino com o humano porque houve um Deus que se fez carne, na pessoa de Cristo Jesus. Faz mais de dois mil anos que a tradição cristã celebra a paixão, morte e ressurreição de Cristo através da festa da Páscoa. Sem essa crença é vã a fé do cristianismo. Uniu-se o céu e a terra, com a realização utópica do amor maior, que venceu a morte e transformou o nada da humanidade em divindade personificada.
A eternidade passou a ser vivida em cada momento presente, que transforma o impossível humano nas possibilidades infinitas do Amor de Deus: a morte foi vencida! Se somos seres com alma, prontos para voar no espírito, mesmo que o desejo de Ícaro tenha sido frustrado, os nossos podem ser modificados ininterruptamente.
Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.
