ELEVAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Maribel Barreto
Nós, os outros e o Todo
Já parou para pensar que aquilo que chamamos de “eu” não se limita ao corpo nem aos pensamentos que atravessam a mente? Refletir sobre a elevação da consciência é olhar para nós mesmos de modo mais amplo: dimensão física, dimensão psíquica e dimensão espiritual como expressões integradas do Ser. Essa compreensão exige superar uma visão fragmentada do ser humano.
Na tradição aristotélica, o Ser remete à ideia de fundamento, unidade e permanência. Essa perspectiva nos convida a perguntar se viver plenamente não significa também reconhecer uma dimensão essencial que ultrapassa a aparência e a materialidade. Ser, então, não seria apenas existir biologicamente, mas tornar-se consciente da própria natureza e da relação com o Todo. Podemos compreender o ser humano em três dimensões inseparáveis. O corpo nos permite receber e experimentar a vida. A dimensão psíquica, por meio dos sentidos sensoriais e extrassensoriais, pensamentos, emoções e interpretações, permite-nos perceber e significar o mundo. Já a dimensão espiritual nos possibilita conceber o princípio criador, a finalidade da vida e a razão da nossa existência.
O biólogo molecular Bruce Lipton, criador da Teoria Epigenética, propõe a concepção de um corpo humano que funciona como uma vasta comunidade de células em cooperação. Seus estudos mostram que esse funcionamento não depende apenas da genética, mas também das relações com o ambiente (epi) e respostas que produzimos com os estímulos ambientais e estilo de vida. Essa teoria reforça que a compreensão de que nada em nós funciona isoladamente. O mesmo vale para a dimensão psíquica. Pensamentos e emoções influenciam atitudes, escolhas e a forma como nos relacionamos com o próprio corpo. Cultivar pensamentos mais conscientes não significa ignorar dificuldades, mas aprender a observá-las sem permitir que determinem automaticamente nosso modo de viver. Quantas vezes você já percebeu que uma crença antiga conduzia uma decisão presente?
A consciência, porém, não se reduz à mente. Ken Wilber, criador da Psicologia Integral, apresenta uma compreensão em camadas, na qual dimensões mais amplas da experiência humana incluem e transcendem as anteriores. Nessa perspectiva, a alma ultrapassa os processos mentais, enquanto o espírito aponta para integração e unidade.
Um dos grandes desafios do nosso tempo é desenvolver conhecimento sem perder a noção da totalidade que nos constitui e constitui a tudo no Universo. A ciência pode ampliar nossa compreensão do corpo e da psiquê, mas a consciência nos pergunta: para quê, para quem e a serviço de que utilizamos esse conhecimento?
E você? Tem cuidado apenas do corpo ou também nutrido a sua vida interior? Tem exercitado o intelecto e, ao mesmo tempo, despertado a sua inteligência? Consegue perceber que somos muito mais do que partes separadas? Somos uma unidade viva, em permanente relação conosco, com os outros, com a natureza, com o Universo e, em essência, com Deus. Tal perspectiva corresponde com a compreensão de que o Ser Humano é muito mais do que o produto de uma grande explosão inexplicável; muito mais do que um capricho de elétrons; bem como muito mais do que um aglomerado de átomos, células e moléculas.
Quando essa compreensão passa a orientar nossas escolhas, a transformação é inevitável. Tornamo-nos mais responsáveis pelo modo como sentimos, pensamos e agimos. E tudo isso constitui nosso Ser e além. Assim sendo, não temos capacidade apenas de pensar o mundo exterior, mas também de reconhecer nós mesmos, os outros e o Todo.
Profa. Dra. Maribel Barreto é escritora e embaixadora da Paz pela UPF/ONU.
