HEROÍNAS ANÔNIMAS

Alessandra Miranda Soares

Participação ativa dos pais


Quando você pensa na dinâmica de cuidados dentro de uma família, quem vem à sua mente? Se a sua resposta foi “a mãe”, você não está sozinho. Histórica, cultural e socialmente, o papel de cuidadora principal dos filhos(as) tem sido empurrado quase que exclusivamente para os ombros femininos. No entanto, quando falamos sobre a criação de filhos(as) com deficiência, essa balança se torna ainda mais desigual.

A sociedade atribui às mulheres a responsabilidade pelo bem-estar da família e este dado é comprovado cientificamente. Pesquisas nas áreas de sociologia, psicologia e saúde pública demonstram que o trabalho de cuidar — seja de filhos(as), parceiros(as), pais idosos(as) ou parentes enfermos é — majoritariamente — delegado às mulheres. Segundo dados oficiais e pesquisas, as mulheres dedicam, em média, três vezes mais horas diárias a tarefas domésticas e ao cuidado não remunerado do que os homens. Quando o filho nasce com alguma deficiência, essa carga horária se multiplica exponencialmente. E aqui é importante enfatizar que de acordo com alguns estudos o cuidado não é um instinto biológico feminino, mas sim uma construção social que sobrecarrega as mulheres, isolando-as do mercado de trabalho, do lazer e da vida pública.

Enquanto a sociedade naturaliza o fato de uma mãe abdicar de sua carreira, de sua saúde mental e de sua vida social para cuidar de outros membros da sua família, a mesma sociedade aplaude o homem que faz o mínimo do mínimo! Se uma mãe delegar os cuidados por apenas algumas horas para espairecer e descansar, ela frequentemente sofre julgamentos morais severos, sendo tachada de “negligente”, folgada, preguiçosa. Em contrapartida, quando um pai troca uma fralda, vai a uma consulta médica ou assume a rotina do filho, ele é rotulado como um “superpai, marido incrível e pai excepcional”. “A mãe tem que agradecer a Deus por ter um marido assim...”

Cuidar de um filho(a) deve ser considerado para o homem o exercício básico da paternidade porque cuidar deve ser entendida e realizada como uma tarefa compartilhada! Contudo, tratar do tema cuidados paternos de filhos ou filhas com deficiência implica entrar em um território complexo.

A presença ativa do pai na rotina de reabilitação, terapias e cuidados diários de uma pessoa com deficiência ainda é minoritária. No entanto, quando os maridos ou parceiros do sexo masculino decidem assumir a paternidade, algo transformador acontece: eles começam a enxergar o mundo através das lentes da experiência do outro(a) assim como ganham uma perspectiva a respeito da vulnerabilidade de seus filhos(as). Passam a sentir e compreender o isolamento e a exclusão que os filhos(as) sofrem.

Ao assumirem a linha de frente do cuidado, os pais saem da redoma do privilégio de visitantes no próprio lar e passam a vivenciar a dura realidade que as mães enfrentam há gerações: o olhar torto; a falta de acessibilidade em espaços públicos; a solidão nas salas de espera dos hospitais; o silenciamento das próprias dores emocionais.

A responsabilidade de cuidar dos filhos(as) com deficiência deve ser dos pais e mães. Quando apenas um dos genitores assume essa tarefa, sua saúde física e mental colapsa. E isso se torna um problema, uma barreira no cuidado de uma criança com deficiência que precisa de estímulos, amor, presença e dedicação filho(a) de ter a presença ativa de ambos.

Você, que lê esta coluna, tem poder de influenciar a cultura ao seu redor. Não basta apenas entender o que ocorre, mas é preciso agir e apoiar a mãe no sentido de fazer os pais compreenderem a importância de seu pai nos cuidados aos filhos e filhas. Encoraje outros pais a cuidar dos filhos, especialmente dos filhos com deficiência.

Alessandra Miranda Soares é professora doutora da Ufersa-RN, especialista em Autoadvocacia e empoderamento de mães de pessoas com deficiência.

alessandrasoares@ufersa.edu.br


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