HEROÍNAS ANÔNIMAS

Alessandra Miranda Soares

Maternagem para a humanidade


Você sabia que maternagem é um termo que não serve somente para as mães? É isso mesmo... Maternagem é uma capacidade humana de proteger, nutrir e sustentar uma vida de outro ser. É um ato de oferta de seu tempo, paciência, amorosidade e energia para garantir o bem-estar de alguém que, momentânea ou permanentemente, não pode se cuidar. Essa função, portanto, não é exclusiva das mães biológicas ou é um instinto materno. Por isso, é fundamental compreender a maternagem para entender a essência do cuidado ao outro.

A filósofa francesa Elisabeth Badinter em sua obra O conflito: a mulher e a mãe, caracteriza a maternidade como uma “construção social”, ou seja, não existe um “instinto materno biológico” e universal que torne a mulher automaticamente apta ou desejosa de cuidar. Você já parou para pensar por que, quando um bebê chora, seu coração de mãe dispara? Ou por que, ao ver uma pessoa idosa com dificuldade de se locomover, um impulso de auxílio surge quase automaticamente? Podemos rotular essas respostas como “instinto materno”, no entanto, ao analisar o conceito de maternagem, estamos diante de algo muito mais profundo e complexo.

O mito de que a mulher nasceu para o sacrifício e que o cuidar é uma “vocação natural” possui uma lógica perversa porque a maternagem “é produto de um preparo para o papel feminino e identificação com as funções femininas inserida na relação hierárquica e diferenciada da divisão social e sexual do trabalho como uma atividade subalterna, com valor social insignificante” (CHODOROW, 1990), que se tornou uma atividade naturalizada na condição feminina. Socialmente, essa crença naturalizada da maternagem aprisiona as mulheres em um destino biológico.

Quando pensamos que o cuidado é um dom inato, invisibilizamos o esforço, a técnica e a carga emocional de quem cuida. O mito de que “cuidar é natural” acaba por criar uma situação perversa para qualquer cuidadora/or, cujo trabalho invisível e desvalorizado gera exaustão. Porém, para além de um serviço, o cuidar constitui um pilar que sustenta a vida porque ao cuidar se está assegurando sobrevivência, saúde e possibilidades futuras de desenvolvimento.

Maternagem, portanto, não é uma mágica genética. Maternar é um trabalho que busca mitigar a vulnerabilidade do(a) outro(a); é uma escolha consciente e, sobretudo, uma prática de afeto, presença e doação ao outro pelo seu bem-estar e saúde. Por isso, é hora de olharmos para as cuidadoras(e)s — mães ou não, profissionais ou familiares — desde uma nova perspectiva fundamentada na desmistificação da ideia de que o cuidado é um “dever sagrado da mulher”. A maternagem precisa ser reconhecida como um pilar da economia e da estrutura social porque sem cuidado, a sociedade não se mantém...

Ao considerar que a maternagem é um trabalho que exige inteligência emocional, resiliência física e uma entrega profunda, ajudamos a quebrar as correntes desse mito e elevar o cuidar ao patamar que ele merece: o de uma competência essencial para a sobrevivência da espécie. Assim, da próxima vez que você observar uma cuidadora em ação, não veja apenas o cumprimento de uma tarefa, enxergue e reconheça a manifestação da maternagem e seu valor humano porque seja para quem gerou ou criou, seja para quem se dedica a aliviar o sofrimento de um enfermo ou a guiar o aprendizado de uma criança, a maternagem é a nossa maior tecnologia de sobrevivência.

Alessandra Miranda Soares é professora doutora na Ufersa-RN e especialista em Empoderamento de Mães de Pessoas com Deficiência.

alessandrasoares@ufersa.edu.br


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