HEROÍNAS ANÔNIMAS
Alessandra Miranda Soares
Ser mãe: projetos e concepções
Ao iniciar este texto, pensei em homenagear todas as mães. Afinal, estamos no mês de maio. Lembrei-me da minha mãe, a “famosa” Dona Creusa, uma mulher forte, alegre e gentil de noventa e um anos que sempre cuidou de todos os detalhes para que seus nove filhos fossem felizes. Minha mãe inspira gratidão. Sou grata por essa mãe acolhedora. Quase um século depois do nascimento da Dona Creusa, a realidade é outra: mães têm que trabalhar e ser “mulher-maravilha”.
Talvez você não saiba que uma variedade de experiências maternas está associada à cultura, às concepções e aos projetos femininos do “ser mãe”, caracterizando novas formas de romper com a figura de mãe do passado, responsável por todos os cuidados delegados à sua função feminina, para instaurar outra figura de mãe que divide o espaço com a figura paterna. Existe um termo — maternagem —, que é “o produto de um preparo para o papel feminino e a identificação com as funções femininas”, conforme afirma a socióloga feminista Nancy Chodorow (1990). Esse conceito é culturalmente construído por meio de representação social da maternidade. Existem também “identidades maternas”, que são diversas. A identidade e a diferença são construídas e desconstruídas, e nada na condição humana é imutável, mas um “vir a ser” que se constrói nas experiências cotidianas de cada ser. Dessa forma, as identidades maternas, assim como todas as outras identidades, formam-se nesse processo provisório, que escolhe e constrói nas relações de poder uma identidade complexa ou um conjunto de identidades. Por exemplo, a mãe adotiva que relata amor incondicional mesmo sem ter gestado ou ter conhecido seu/sua filho(a) ao nascimento.
Desde a década de 60, a constituição da identidade materna reside nos conceitos do EU: mãe e VOCÊ: filho(a) e na vinculação entre eles(as). A rede de relações que se estabelece entre mãe, filho(a) e o mundo está na base da identidade materna, que é composta pelo reforço social e pela idealização que as mulheres fazem de si como mãe, do bebê e do filho(a).
A mãe é aquela que cuida, que educa, amorosa, está presente. As meninas quando são estimuladas a brincar de casinha já estão aprendendo a ser “esta mãe”. Assim são fabricadas as marcas identitárias da maternidade e as relações com as diferenças histórico-culturais e de gênero que contextualizam a experiência de ser mãe, no passado, hoje e que não é diferente para as mães de filhos e filhas com deficiência. Vivemos agora um processo de transição na experiência da maternidade em que ainda temos muito a caminhar e aprender.
Pensei que seria fácil descrever o “ser mãe”, no entanto, mesmo tendo estudado e pesquisado esse tema, em meu doutorado, com o foco nas mães de pessoas com deficiência, descobri que há ainda infinitas interrogações que emergem durante a construção social do papel feminino de ser mãe, que precisam de tempo, pesquisa e profundas reflexões para serem respondidas.
Finalizo minha coluna deste mês parabenizando todas as mães que, de formas e jeitos diferentes, desempenham um papel indispensável à perpetuação da humanidade e à manifestação no mundo das qualidades da alma: o perdão, a amorosidade, a justiça... Mas lembre-se: respeite e aceite o seu jeito de ser mãe, sem comparação e sofrimento, já que ser mãe significa um intenso movimento de viver, pensar e agir... já que ser mãe é sempre um profundo processo de vir a ser.
Alessandra Miranda Soares é professora doutora na Ufersa-RN e especialista em Empoderamento de Mães de Pessoas com Deficiência.
alessandrasoares@ufersa.edu.br
