Internação sem silenciamento

Ligia Splendore

Vivemos, hoje, um momento crítico em saúde mental em escala global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que “uma em cada oito pessoas no mundo vive com algum transtorno mental.” Após a pandemia, houve um aumento expressivo: cerca de 25% de casos de ansiedade e depressão. A própria OMS aponta que uma parcela significativa das pessoas não tem acesso a cuidado adequado. Esse descompasso entre sofrimento e acesso ao cuidado tem levado especialistas a caracterizar a saúde mental como uma das grandes crises ou epidemias silenciosas do nosso tempo.

As internações psiquiátricas fazem parte do cuidado em saúde mental e, em momentos de crise aguda podem ser necessárias, especialmente quando há risco para a própria pessoa, para terceiros ou quando o intenso sofrimento psíquico compromete o autocuidado. O ideal, nesses casos, seria existir a oferta de suporte clínico, estabilização e acompanhamento multidisciplinar. Todavia, isso está longe da realidade atual porque há escassez de leitos no sistema público de saúde e sobrecarga de trabalho das equipes de saúde. Em alguns contextos, a atuação profissional nem sempre consegue oferecer o cuidado devido ao paciente com a sensibilidade necessária. Além disso, o risco de institucionalizações prolongadas pode fragilizar vínculos, autonomia e sentido de pertencimento do paciente.

É importante reconhecer que, embora comum, a experiência da internação não é neutra. Para muitos/as, ela pode ser vivida como um atravessamento difícil, marcado por sentimentos de perda de liberdade, incompreensão e solidão. O que, na intenção do cuidado, por vezes se aproxima de vivências de restrição e constrangimentos. Associada, muitas vezes, a ideias de fracasso ou perda de controle, o estigma que envolve a internação psiquiátrica intensifica esse cenário já desafiador, reforçando o silêncio em torno do tema e dificultando a construção de caminhos mais consistentes com consciência e humanização.

Por isso, a internação precisa ser urgentemente ser pensada com critérios apropriados e fundamentados no que há de mais novo na área, ou seja, como parte de um cuidado mais amplo e ético que considere cada paciente em sua singularidade. Sempre que possível, a decisão deve ser compartilhada com o paciente e sua família e deve haver clareza no projeto terapêutico integrado a uma rede contínua de acompanhamento, inclusive na pós-internação. A recomendação é que a internação ocorra pelo menor tempo necessário, favorecendo a reinserção e o cuidado após a alta. É fundamental, portanto, que novas possibilidades sejam construídas. Por exemplo, como o modelo americano de peer respites, isto é, clínicas baseadas no apoio mútuo que são gerenciadas por “pares” e propõem formas de cuidado menos hierárquicas e mais próximas da experiência vivida.

No Brasil, o Movimento Repensando a Loucura, desde 2017, tem se dedicado a manter uma rede de apoio ativa entre “pares/experienciadores”. Em um cenário de tamanha urgência, ampliar o cuidado envolve escutar, com profundidade, as experiências das pessoas que atravessam esses processos. Por isso tenho tido o cuidado de sempre trazer um depoimento que, desta vez, vem em forma de poesia, que uma experienciadora anônima do Repensando a Loucura fez para o JORNALZEN sobre a internação pela qual passou recentemente:


Dentro de mim: multidão. Fora de mim: restrição.

Entre muro...Entre murros.

Grades, remédios, contenções, pesadelos.

Até quando? Até quando a loucura será silenciada com meios tão hostis?

Até quando seremos apagados dentre sonhos febris?

Estigma e estagnação

Cultura, sociedade e história

Para os sãos tem vazão. Para os loucos, não.


Ligia Splendore é psicóloga transpessoal e criadora do movimento Repensando a Loucura.

ligiasplendore@gmail.com