O ócio criativo é indispensável

Alessandra Miranda Soares

Ter tempo para vivenciar o ócio criativo é um investimento de peso na capacidade de superação das adversidades (resiliência) de mães de filhos/as com deficiência. É uma estratégia de sobrevivência emocional. Quando vocês, mães de pessoas com deficiência assumem seu direito e necessidade de pausa (que podem ser criativas), estão criando um estilo de vida mais saudável, para todos/as, inclusive você! Pintar, desenhar, dançar, participar de coral, de clube do livro, fazer uma atividade física ou jardinagem, é uma oportunidade de vivenciar o ócio criativo e sentir-se bem.

Escuto de mães de pessoas com deficiência que quando “fazem o que quer que seja para si”, se sentem culpadas. A presença de sentimentos de “culpa” é intensa e vem de dentro e de fora... A culpabilização externa vem de familiares e profissionais (especialmente da saúde e da educação) que tendem a julgá-las porque algo parece “não acontecer como deveria ou esperado”. Somam-se a esses julgamentos valores culturais ligados à noção de maternidade, que pesam porque ser mãe significa socialmente um contínuo de dedicação e sacrifícios. Até mesmo um descanso necessário pode ser rotulado de “desleixo”, mas atividades diversas, como mencionado acima, são fundamentais para estar em espaços de convivência e, gradualmente, se distanciar da dor da culpa para a alegria da autorrealização.

Segundo a filósofa francesa Elizabeth Badinter (2011), a maternidade é “feita de esgotamento, de frustração, de solidão e, até mesmo, de alienação, com seu cortejo de culpa. Não é um conto de fadas.” Então, a culpabilização materna provoca uma roleta de sentimentos diversos prejudiciais às mães. Em minha pesquisa com as mães, Juliana, mãe de um jovem com deficiência desabafa: “O fato de eu ter tido um filho com deficiência e de ele não estar fazendo terapia, faz eu me culpar por tudo que acontecia com meu filho, me sentia a culpada de tudo. E você deixa de viver”. (Soares, 2015). Essa culpabilização representa experiências humanas corrosivas porque “é sobre a mulher que recai toda a culpa pela deficiência do(a) filho(a)”, conforme a pesquisadora e mulher cega Adenize Queiroz (2011) afirma.

Assim, é importante as pessoas entenderem que o ócio criativo é um descanso mental necessário, não é apenas um intervalo — um break nas atribulações maternas, mas um investimento vital na própria saúde mental e resiliência. Se você, leitora ou leitor do JORNALZEN, conhecer ou conviver com a mãe de uma criança, jovem ou adulto com deficiência, procure ser mais compassivo e gentil. Busque conhecer e compreender as necessidades reais dessas mulheres. Exercite sua humanidade iluminada... E você, mãe, na próxima vez que sentir o peso da culpa ao fechar um livro ou pegar um pincel, lembre-se de que você precisa se cuidar e que ao se cuidar você se torna capaz de criar que é, em si, um ato de amor.

Por isso, aqui deixo alguns caminhos para você incorporar o ócio criativo a sua vida:


  1. Diário de coisas boas – tire um tempinho e anote seus pensamentos sobre coisas que te fazem bem, prazerosa. Depois escreva como você merece essas coisas boas...

  2. Pausas programadas – reserve de cinco a dez minutos para respirar e ficar silenciosa, só com você... ou simplesmente curta uma música que gosta.

  3. Nunca se isole porque você acha que não tem tempo... Busque suas amigas e diga como são importantes para você. Convide-as para um café ou bolo...


Fortaleça-se internamente com apenas alguns momentos de ócio criativo e melhore sua qualidade de vida.

Alessandra Miranda Soares é professora doutora na Ufersa-RN e especialista em Empoderamento de Mães de Pessoas com Deficiência.

alessandrasoares@ufersa.edu.br