O usuário de IA ficou mais pobre de espírito e humanidade?

A poesia de Gilberto Gil me surpreende pelas suas intuições filosóficas ancestrais. A letra da música Cérebro Eletrônico, escrita há mais de 50 anos durante seu exílio na Ditadura Militar, levanta a questão do ser humano mediante o trabalho dominado por máquinas. A sua escrita poética previu, de maneira intuitiva, o que estamos vivenciando com a criação do mundo digital na sociedade em fluxo de redes eletrônicas, que recentemente atingiu a quase todos nós com a denominada inteligência artificial (IA).

Profa. Dra. May Guimarães Ferreira

“O cérebro eletrônico faz quase tudo... comanda, manda e desmanda... mas ele não anda... só eu posso pensar se Deus existe... só eu posso chorar quando eu estou triste... eu cá com meus botões de carne e osso(.) eu sou vivo (.) e sei que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro.” (Gilberto Gil, 1969)


A poesia de Gilberto Gil me surpreende pelas suas intuições filosóficas ancestrais. A letra da música Cérebro Eletrônico, escrita há mais de 50 anos durante seu exílio na Ditadura Militar, levanta a questão do ser humano mediante o trabalho dominado por máquinas. A sua escrita poética previu, de maneira intuitiva, o que estamos vivenciando com a criação do mundo digital na sociedade em fluxo de redes eletrônicas, que recentemente atingiu a quase todos nós com a denominada inteligência artificial (IA). A forma de comunicação foi alterada através do compartilhamento de informações oriundas de inúmeras fontes privadas transnacionais de broadcast desregulamentas que substituíram as tradicionais centrais de comunicação dos Estados, como correios, rádio e televisão, até então sujeitos à legislação local.

Em países onde avançou a implantação de inteligência artificial, há processos coletivos de acordos entre empresários e força de trabalho para possibilitar a garantia da empregabilidade com requalificação aos novos padrões de produtividade e lucro. O avanço do desenvolvimento do capitalismo geraria, segundo Marx, a ‘subsunção real do homem à máquina”, ou seja, o ser humano seria submetido integralmente de maneira material e espiritual ao processo de trabalho. O que acontece hoje, não é apenas uma alteração tecnológica geral, mas sobretudo uma transformação civilizatória que incidirá de maneira radical na forma de existência humana.

A carta apostólica do papa Leão XIV aponta recentemente para o risco da perda da identidade humana e empobrecimento espiritual causado pelos determinantes econômicos na era da IA. Ainda é desconhecido o que acontecerá, a longo prazo, com a singularidade pessoal mediante os processos de tecnologia atuais. Com a sua formal invisibilidade a IA faz o poder de decisão incidir na vida cotidiana, nos relacionamentos interpessoais e intrapessoais, no imaginário, na dignidade humana e no bem comum. A produção de conhecimento sobre o funcionamento psíquico, bem como a manipulação neurobiológica capaz de produzir “monstros” e “santos”, caminha no ritmo de causar emergências globais de desamparo e desespero devido à carência espiritual e emocional.

O mistério da vida é profundamente divino para se deixar extinguir com a materialidade da tecnologia artificial. Nós, humanos, não fomos feitos de metal nem de chips, não temos nervos plástico, nem de aço. Ao contrário, somos frágeis e transitórios. Na sabedoria do momento presente reside a transformação e melhoria da nossa complexidade emocional. A vida simples e ética se traduz em saber viver com o necessário. No essencial encontramos os relacionamentos sinceros, verdadeiros reciprocamente ancorados na promoção do bem-estar de cada um e de todos nós, com menos consumo e menos trabalho exaustivo. Para que não percamos a dignidade humana, mediante as promessas de uma inteligência declarada como sendo artificial, será necessário um saber científico e tecnológico direcionado para o respeito à natureza magnífica da vida humana. Essa escolha é fundamental para a sobrevivência da humanidade.


Profa. Dra. May Guimarães Ferreira. Instituto Federal do Maranhão.


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