Cuidar é ajudar a acender a luz

Em 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, fomos convidados a olhar com mais delicadeza para quem atravessa um sofrimento psíquico. Por trás de um diagnóstico há alguém com lembranças, vínculos e um jeito próprio de perceber o mundo. Há uma vida que merece cuidado e direitos, inclusive quando lhe faltam palavras para pedir ajuda.

Daniel Hamer Roizman

Em 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, fomos convidados a olhar com mais delicadeza para quem atravessa um sofrimento psíquico. Por trás de um diagnóstico há alguém com lembranças, vínculos e um jeito próprio de perceber o mundo. Há uma vida que merece cuidado e direitos, inclusive quando lhe faltam palavras para pedir ajuda.

Na tradição mística judaica Cabala, a imagem dos vasos que se quebram e das centelhas divinas que permanecem entre os fragmentos é oferecida como uma linguagem para pensar a fragilidade. Nessa imagem encontro inspiração poética para a clínica: mesmo quando a experiência de si parece despedaçada, algo pode encontrar acolhimento e ganhar novas formas de existir. Adoecer não é falhar espiritualmente.

A Árvore da Vida também nos convida a pensar nas relações entre forças. Chesed evoca a generosidade; Gevurah, o limite; Tiferet, a beleza de sua harmonização. Esse diálogo inspira perguntas sobre nossos desequilíbrios: quanto conseguimos oferecer sem nos abandonar? Como estabelecer limites sem ferir? Em certos momentos, precisamos de ajuda para encontrar uma medida possível entre o que sentimos e o que conseguimos sustentar e, para tanto, devemos buscar exercer a misericórdia tanto com nós mesmos como com os outros.

Chamo de clínica da luz uma disposição para reconhecer a vida que continua buscando passagem, mesmo sob grande sofrimento. Essa luz pode aparecer discretamente: no desejo de voltar a cozinhar, numa lembrança que finalmente encontra um ouvinte, no humor que reaparece sem desmentir a tristeza. O cuidado oferece tempo e companhia para que esses movimentos encontrem lugar. Há dias em que o gesto mais luminoso é aceitar que alguém ainda não consegue enxergar saída. Pedir alegria a quem mal consegue levantar-se pode aumentar sua solidão. A presença terapêutica acolhe também o silêncio, a raiva e o desânimo. A pessoa pode chegar como está, sem precisar apresentar uma versão mais agradável de sua dor. Uma clínica assim se faz com responsabilidade. Psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e outros recursos podem compor o cuidado conforme as necessidades de cada pessoa. A espiritualidade pode ser fonte de amparo quando faz sentido para ela; a liberdade de não crer merece o mesmo respeito. Sonhos e vivências espirituais pedem escuta atenta ao seu contexto e aos seus efeitos na vida, sem ridicularização ou conclusões apressadas.

Quem vive com um transtorno mental tem direito a atendimento digno, proteção contra a violência e a discriminação, privacidade e participação nas decisões sobre seu cuidado. Tem direito de viver em comunidade, manter vínculos e construir projetos. Um diagnóstico pode orientar o tratamento, mas não contém a totalidade de uma pessoa. Sua voz precisa continuar presente nas conversas sobre sua própria vida. O estigma também se instala nos pequenos gestos: quando se transforma o diagnóstico em apelido, se desacredita toda palavra ou se deixa de convidar alguém para a vida comum. Podemos começar a desfazê-lo escutando sem antecipar a resposta, respeitando escolhas e oferecendo apoio sem tomar posse do caminho do outro.

A ideia de tikun, reparação, ganha aqui uma ressonância ética. O cuidado com quem sofre alcança as relações e o mundo compartilhado. Precisa chegar aos serviços de saúde, às condições de moradia e trabalho, às famílias que também necessitam de apoio. Acolher exige presença e condições concretas para que a vida possa florescer. Talvez a clínica da luz comece nesse encontro em que uma pessoa já não precisa esconder sua dor para continuar pertencendo. Às vezes, a esperança chega assim: alguém permanece ao nosso lado, e o mundo volta, pouco a pouco, a ter lugar para nós.


Daniel Hamer Roizman é psicólogo, psicanalista e escritor

danielhamer@me.com


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