Por que eu sempre volto à Índia...
Andrés De Nuccio
Enquanto este texto chega aos leitores, estarei novamente na Índia. Digo “novamente” com um sorriso silencioso, porque já perdi a conta exata das vezes que estive neste país que conhece os caminhos da magia da transformação humana. Foram mais de 30 viagens! A primeira, no ano 2000, foi a concretização de um sonho antigo, daqueles que nascem cedo e não nos largam. Eu tinha 14 anos quando ouvi falar pela primeira vez de ioga, meditação e da sabedoria que vinha do Oriente. Algo em mim reconheceu essa sabedoria ancestral antes mesmo de entender seu significado e importânia. Desde então, voltei muitas vezes à Índia: levei grupos, voltei sozinho, estudei, meditei, caminhei, sentei em silêncio, conversei com monges. Conversei com pessoas simples que nunca ouviram a palavra espiritualidade, mas a vivem sem precisar nomeá-la.
Cada viagem à Índia foi diferente e, ainda assim, todas pareciam um reencontro, um resgate.
Estar em outra cultura nos mostra algo precioso que raramente percebemos no cotidiano. Aquilo que pensamos, sentimos e fazemos não é a verdade. É apenas uma compreensão ou manifestação possível entre muitas. Quando a mente se encontra diante de outros ritmos, outros gestos, outros valores, ela começa a relaxar suas certezas, ou seja, acontece uma reconfiguração da “verdade” e, aos poucos, algo se revela com clareza serena. Existe uma diferença profunda entre nós — a inteligência que observa, e os modos habituais de viver e interpretar a vida.
Na Índia, essa compreensão não aparece apenas em livros, discursos ou narrativa. Ela está presente no cotidiano, no olhar curioso que não julga, no sorriso trocado sem pressa, na forma como as pessoas parecem aceitar que cada um/a é exatamente como o universo permite que seja. Ao invés de nos cobrar adaptação a um padrão de ser, há uma curiosidade viva, quase infantil, por quem somos e o modo como vivemos. Universos diferentes se reconhecem, às vezes, num simples encontro de olhares, como se duas almas se abraçassem em silêncio.
Costuma-se dizer que a Índia é espiritual. Mas isso ainda é pouco. A espiritualidade ali não se restringe aos templos ou aos momentos formais de meditação. Ela permeia a vida comum. Está presente nos contrastes que convivem sem conflito aparente. O antigo e o moderno. O silêncio interior e o movimento incessante das ruas. A Índia nos ensina, sem precisar explicar, que o espiritual e o material não são opostos. Eles coexistem, se entrelaçam, se sustentam.
Talvez por isso eu sempre volte. Porque ali sou lembrado, de maneira muito concreta, de que a vida pode ser vivida com menos divisões rígidas. Porque ampliar os próprios paradigmas não é um exercício intelectual, mas uma experiência sensível. Ao mudar o cenário externo, algo dentro se reorganiza. A mente se abre. O coração amolece. E a existência parece ganhar mais espaço para respirar.
Desde o início desta viagem, no dia 1º de fevereiro, tenho compartilhado no Instagram (@andresdenuccio, @instituto.isvara) fragmentos dessa travessia. Pequenos relatos, imagens, encontros e impressões. Não como quem ensina, mas como quem continua aprendendo. Talvez, diferentemente de mim, você nunca tenha pensado em visitar a Índia, menos aimda fazer meditação em um ashram indiano... mas posso garantir — com base na experiência de muitas pessoas que foram à Índia comigo ao longo de 30 anos — que você vai viver uma experiência de transformação profunda e de reconecção com seu “ser”. Talvez, ao acompanhar meus relatos online, você sinta esse chamado e também esse convite delicado para olhar a própria vida com mais amplitude, curiosidade, amorosidade e gentileza.
Andrés De Nuccio é psicólogo e professor de meditação
