Quem dera que fosse réveillon o ano inteiro!
O que seria viver com a ideia de que é sempre novo o dia nascente? Seriam as festas e as datas comemorativas um processo de elaboração imaginário daquilo que é irrefutável na vida de cada um de nós?
May Guimarães Ferreira
O que seria viver com a ideia de que é sempre novo o dia nascente? Seriam as festas e as datas comemorativas um processo de elaboração imaginário daquilo que é irrefutável na vida de cada um de nós?
Impossível nos parece parar o tempo. Pensando melhor, as horas passam somente no relógio a partir da movimentação da luz do Sol na circunferência da terra. E sempre acontece de maneira muito suave. O Sol nasce sem pedir licença à noite escura, que também é iluminada por outras estrelas. Na aurora há uma força luminosa que faz brotar sentimentos de renascimento e esperança. Nada fica escondido quando o Sol brilha no leste de nossa vida. A luz do Sol é a garantia da vida que brota da terra e o catalisador de nossos sentimentos de bondade e generosidade.
Não é desconhecido o lema de que o Sol nasce para todos e todas, sem exceção de ninguém na face da terra. Depois que o movimento de rotação da Terra alcança sua extremidade na direção oeste, a luz começa a se despedir provisoriamente de nós. Mas só provisoriamente... Quando essa nossa estrela de quinta grandeza vai se esconder no horizonte deixa marcas da beleza da sua luz em panoramas coloridos que jamais se repetem. Cada vez que o Sol se põe acontece um espetáculo a ser admirado pela retina de cada um de nós. Parece que a beleza está anunciando que a noite será nossa amiga, pois é prima-irmã do Sol.
A sutileza da luz da Lua nos faz sentir acompanhados pela poesia do Universo. E sempre há uma estrela visível, pelo menos, em cada entardecer que fica nos fazendo companhia durante toda a escuridão da Lua, quando ela se torna invisível. A Lua vazia é o anúncio de que haverá Lua cheia brevemente. Essa movimentação lunar também não faz alarde e acompanha cada passo dos caminheiros da noite, inspirando versos e poesia. “Quem dera se fosse sempre primavera, amor! Quem dera se fosse sempre réveillon. De branco o ano inteiro, um chapéu Panamá, champanhe do bom, em sete ondas pular e pedir para Yemanjá por nós dois, por nós dois, românticos à beira mar...” (CD Cine Tropical, de Alê Muniz e Luciana Simões).
Os eventos da nossa vida cotidiana nos fazem marcar o tempo, imaginariamente, a partir de momentos significativos da vida de cada um. A contagem de idade começa pelo dia que se viu a primavera pela primeira vez. Diz-se comumente, fulana completou tantas primaveras. O ano 2025 da Era Cristã é a contagem do número de solstícios de inverno, desde o nascimento do menino Yeshua, ressignificando a festa pagã do nascimento da luz. A ideia de tempo contínuo está em Santo Agostinho no seu livro Confissões XI: “Se o presente fosse sempre presente e não passasse para o passado, já não seria tempo, mas eternidade.” Através da inspiração agostiniana, compreendemos a essencial necessidade de criar celebrações de eventos que fazem parte das passagens de nossa vida.
Diversas vezes fazemos pequenas paradas ao longo do ano. Na verdade, temos urgência física e mental de parar. Essa é uma arte essencial para a nossa sobrevivência e qualidade de vida. Permanecendo com a luz do Sol, o protagonista do nosso tempo de calendário, festejamos as transformações que ocorrem na estável Terra e, no nosso corpo, ao longo dos anos. Na primavera, outono, inverno e verão há sempre coisas novas acontecendo no meio ambiente e em nossa subjetividade. E isso é motivo de celebração, irrefutavelmente!
Profa. Dra. May Guimarães Ferreira é psicóloga, psicanalista e arteterapeuta
