REPENSANDO A LOUCURA

Ligia Splendore

Repensar a loucura do mundo


Em minhas colunas anteriores no JORNALZEN, venho abordando a saúde mental sob uma perspectiva integral, apresentando formas para repensarmos juntos a “loucura do e no mundo”. Ainda cercado de estigma, a saúde mental se torna um tema cada vez mais urgente diante de um cotidiano marcado pela intensidade, insegurança e pelo ritmo acelerado da vida contemporânea.

A internet, os smartphones e, mais recentemente, a inteligência artificial têm impactado significativamente a saúde mental ao intensificar a ansiedade, a sobrecarga de informações e a sensação de urgência constante. A exposição contínua às redes sociais favorece comparações e sentimentos de inadequação, enquanto o uso excessivo de dispositivos prejudica o sono, as relações presenciais e o contato consigo mesmo. Embora tragam benefícios, essas tecnologias também fragmentam a experiência subjetiva, tornando mais difícil sustentar espaços de reflexão e elaboração psíquica.

Diante desse cenário, criar espaços seguros de escuta e troca de qualidade torna-se essencial. Ao nomearmos e compartilharmos nossas experiências deixamos de ser conduzidos inconscientemente por conteúdos internos e passamos a participar ativamente de sua elaboração. Esse processo amplia a consciência, favorece o discernimento e possibilita escolhas mais livres e integradas.

É nesse contexto que surge o movimento Repensando a Loucura, que desde 2017 propõe ampliar a compreensão do sofrimento psíquico para além dos paradigmas tradicionais. Ao reunir profissionais, terapeutas e, sobretudo, os/as “experienciadores/as”, a iniciativa promove espaços de acolhimento, troca e expressão, evidenciando a potência da escuta qualificada e de ambientes livres de julgamento, especialmente no campo das experiências subjetivas e espirituais.

No evento anual on-line 2026 que tem como tema central “Experiências que Transformam: entre Ciência e Existência” (dia 30 de maio; inscrições: @repensandoaloucura), essa proposta se expande com o lançamento de um Projeto de Livro de Relatos dessas experiências, aproximando mais ciência e subjetividade no contexto da vida real. O evento conta com a participação do Programa de Pesquisa do Instituto de Psiquiatria da USP (ProExp) dedicado ao estudo das experiências não-ordinárias e dos estados alterados de consciência e do Spiritual Emergency Network (SEN Brasil), iniciativa voltada ao acolhimento e orientação de pessoas que vivenciam emergências espirituais.

Assim, em um tempo em que o sofrimento psíquico se intensifica, iniciativas como a do movimento Repensando a Loucura abrem espaços para uma abordagem mais humana, integradora e sensível incluindo a voz das pessoas que passam por essas experiências e que, muitas vezes, sentem o chamado de trazer suas histórias para ajudar outras pessoas. O depoimento da experienciadora F.C.P. fala sobre isso: “Ao atravessar experiências intensas, percebi o quanto essas vivências ainda são silenciadas ou reduzidas a algo que ‘não existe’ ou ‘é coisa da mente’. Eu mesma já me calei diante de vozes externas que não compreendiam o que eu sentia. Mas foi nesse processo que compreendi que essas experiências são vividas pela alma, enquanto o corpo e mente, não compreendem. Vamos buscar ampliar o olhar para uma abordagem mais humana, sensível e integradora, onde possamos acolher essas vivências e encontrar caminhos de sentido, consciência e transformação.”


Ligia Splendore é psicóloga transpessoal e criadora do movimento Repensando a Loucura.

ligiasplendore@gmail.com


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