REPENSANDO A LOUCURA

Ligia Splendore

Entre ciência e existência


No evento anual Repensando a Loucura 2026, Experiências que transformam: entre ciência e existência, tivemos a alegria de reunir profissionais de saúde mental, pesquisadores, experienciadores/as, familiares e pessoas interessadas em ampliar o diálogo sobre sofrimento psíquico, espiritualidade e cuidado. Diferentes vozes e saberes se encontraram por meio de palestras, relatos pessoais, prática de meditação e espaço de troca, reafirmando uma pergunta central que atravessa o trabalho do movimento Repensando a Loucura: como construir formas mais humanas, integrativas e acolhedoras de compreender e cuidar do sofrimento mental?

Esse espaço anual de encontro entre ciência, experiência e espiritualidade, reconhece que muitas experiências humanas intensas, frequentemente associadas ao sofrimento psíquico, também se destacam profundamente nas dimensões subjetivas, existenciais e espirituais. Então, ao reunir perspectivas diversas, ao mesmo tempo criamos espaço para ampliar o debate sobre saúde mental e abrir caminhos para abordagens mais sensíveis à complexidade da experiência humana. Para quem não pôde acompanhar ao vivo, é possível acessar o conteúdo do evento pelo Instagram @repensandoaloucura, e conhecer sobre como diferentes estudos contribuem para a compreensão e validação das experiências espirituais como fenômenos inerentes à condição humana.

Lançamos o projeto de livro sobre Relatos de Experiências Espirituais Intensas e Emergências Espirituais, no qual serão reunidas narrativas pessoais que expressam a diversidade e o espectro dessas vivências, desde experiências de expansão da consciência e vivências espirituais profundas até momentos de grande desorganização emocional ou psíquica, incluindo também os desafios relacionados à sua interpretação, integração e ao frequente entrelaçamento ou sobreposição de sintomas com diagnósticos de transtornos mentais. Mais do que registrar experiências, o livro nasce como um convite à escuta. Um espaço para dar visibilidade às vozes de quem viveu essas experiências e, muitas vezes, encontrou pouco acolhimento ou compreensão para nomeá-las.

Seguimos acreditando que ampliar escutas, reunir diferentes saberes e legitimar a experiência vivida é parte essencial da construção de novos caminhos de cuidado em saúde mental, caminhos que acolham a complexidade do sofrimento humano com mais presença, rigor, sensibilidade e humanidade.

Finalizo com o depoimento de experienciadora S.B., que esteve no evento e agora compartilha suas percepções:

Fiquei muito emocionada com tudo que é oferecido voluntariamente com tanta dedicação e amor por todos os profissionais de diferentes áreas de saúde mental. Eu, experienciadora, me senti acolhida e compreendida. Quem dera já existisse o Repensando a Loucura desde minha adolescência, quando tive as primeiras experiências espirituais. Hoje aos 64 anos, graduanda de psicologia e pós-graduanda em psicologia transpessoal, participar do encontro foi uma oportunidade enriquecedora de conhecimentos, expandindo as possibilidades de caminhos que estão sendo construídos para que mais e mais experienciadores recebam acolhimento e compreensão com olhar científico e se libertem do estigma “não somos loucos”, e devemos ser excluídos da sociedade, como éramos tratados antigamente, antes do movimento antimanicomial. Somos pessoas que experienciam vivências profundas e íntimas com a espiritualidade, que vivemos uma travessia de experiências transformadoras e que com o acompanhamento adequado nos leva para uma estrada de convivência equilibrada e harmoniosa com o nosso transcendente.


Ligia Splendore é psicóloga transpessoal e criadora do movimento Repensando a Loucura.

ligiasplendore@gmail.com


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