Ser uma mulher transexual e a contínua autodefesa
O dia 29 de janeiro, marcado como Dia da Visibilidade Trans, é associado à ideia de reconhecimento e afirmação. Falar em visibilidade soa positivo: estar à vista, ser reconhecida, ocupar espaços. Mas para quem vive a realidade de um corpo trans, a visibilidade é uma faca de dois gumes. A experiência mostra que visibilidade, por si só, não é sinônimo de proteção. Em muitos contextos, ela apenas desloca o corpo para o centro do olhar — sem alterar as condições que tornam esse olhar ameaçador.
Maria Lis Cardoso
O dia 29 de janeiro, marcado como Dia da Visibilidade Trans, é associado à ideia de reconhecimento e afirmação. Falar em visibilidade soa positivo: estar à vista, ser reconhecida, ocupar espaços. Mas para quem vive a realidade de um corpo trans, a visibilidade é uma faca de dois gumes. A experiência mostra que visibilidade, por si só, não é sinônimo de proteção. Em muitos contextos, ela apenas desloca o corpo para o centro do olhar — sem alterar as condições que tornam esse olhar ameaçador.
Eu, como mulher transexual e acadêmica (Direito, Matemática, Física e Filosofia), atuo em todas essas áreas refletindo sobre o que vivo. E viver, para mim, é resistir. Corpos trans aprendem cedo que a visibilidade é uma prática cotidiana de risco. O cérebro registra padrões de segurança e silêncio. Estar no meu corpo é estar em luta constante, mesmo que eu não queira. Essa aprendizagem é neurobiológica: ambientes imprevisíveis treinam o corpo para antecipar o risco. Visibilidade sem cuidado cobra um preço alto, exigindo gasto contínuo de energia psíquica e transformando a existência em desempenho. Não é fragilidade, mas adaptação a contextos que não permitem descanso. A própria existência passa a ser uma resistência inegociável.
Do ponto de vista neurocientífico, segurança nasce da previsibilidade. O sistema nervoso regula quando reconhece o ambiente como minimamente confiável. Pequenas repetições importam: ser chamada pelo nome correto, não precisar se explicar, perceber que regras valem igualmente para todos. Quando eu pesquiso nos tribunais de justiça e vejo a palavra “travestida” ligada a “golpe, ardil, simulação”, eu percebo o quão congelado está o discurso da justiça. Essa entropia é devastadora e mostra que a regra não vale igualmente para todos/as. A pergunta central não é quem pode ser visível, mas em que condições essa visibilidade acontece. Quando a responsabilidade pela adaptação recai apenas sobre quem já é vulnerável, a visibilidade deixa de ser reconhecimento e passa a ser mais uma tarefa individual de sobrevivência. Pensar a visibilidade como cuidado coletivo desloca essa lógica, compreendendo que ambientes também educam — ou adoecem.
No Dia da Visibilidade Trans, talvez o gesto mais honesto seja este: observar menos o corpo exposto e examinar mais os contextos que o cercam. Visibilidade, quando acompanhada de cuidado, não exige defesa constante. Ela permite algo raro: existir sem tensão permanente. E isso, mais do que aparecer, é condição básica de dignidade.
Maria Lis Cardoso é mulher transexual, bacharela em Direito pela Unisul, licenciada em Matemática pela UFSC e em Física pela UFS. É pós-graduanda em Filosofia, Educação e Cultura pela UFRB e pesquisadora em gênero e justiça.
