Tecnologias na educação: como cultivar valores humanos?

A tecnologia digital deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio. Hoje, ela organiza grande parte da vida contemporânea: comunicação, trabalho, lazer, estudo, compras, entretenimento e até mesmo relações sociais passam, cada vez mais, pelas telas. Na educação, esse movimento tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos. Plataformas digitais, aplicativos, inteligência artificial e redes sociais passaram a integrar o cotidiano de professores e alunos de maneira praticamente irreversível. Não há como fugir dessa realidade — e talvez nem seja esse o caminho.

Núbia Hübner

A tecnologia digital deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio. Hoje, ela organiza grande parte da vida contemporânea. Comunicação, trabalho, lazer, estudo, compras, entretenimento e relações sociais passam, cada vez mais, pelas telas. Na educação, esse movimento tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos: plataformas digitais, aplicativos, inteligência artificial e redes sociais passaram a integrar o cotidiano de professoras/es e alunos/as de maneira praticamente irreversível. Não há como fugir dessa realidade — e talvez nem seja esse o caminho. O verdadeiro desafio da atualidade não é eliminar a tecnologia, mas aprender a conviver com ela de forma consciente, equilibrada e saudável.

Vivemos uma era de disputa permanente pela atenção humana. Vídeos curtos, notificações, propagandas personalizadas, mensagens instantâneas e algoritmos criados para manter nos manter conectados formam um ambiente de estímulo contínuo. O cérebro humano, naturalmente sensível à novidade e à recompensa rápida, acaba sendo constantemente capturado. Os efeitos desse modelo já podem ser percebidos no cotidiano, como por exemplo, o fato de que muitas pessoas relatam dificuldade crescente de concentração, ansiedade diante do silêncio, necessidade permanente de estímulos e redução da capacidade de permanecer em leitura profunda ou reflexão contínua.

O comportamento social também se transforma silenciosamente e “o tempo de espera” parece intolerável porque queremos tudo rápido: áudios são ouvidos em velocidade acelerada. conversas tornam-se mais rápidas, textos longos passam a exigir um esforço que antes era natural! Vivemos, muitas vezes, correndo de uma tarefa para outra, de uma tela para outra e de uma informação para outra, sem tempo para perceber o que tudo isso está produzindo internamente em nós. Nesse contexto, educadoras/es enfrentam um desafio complexo: ensinar em um ambiente em que a atenção se tornou um dos bens mais disputados do século XXI.

As novas gerações, por outro lado, já nasceram conectadas, inseridas no universo digital. Diferentemente dos adultos da era analógica e que migraram para a tecnologia, muitos jovens talvez nunca tenham experimentado plenamente uma mente sem notificações contínuas, estímulos constantes ou sem a presença permanente das milhares de telas que bombardeiam seu cérebro. Tal realidade deve provocar profunda reflexão no âmbito da educação contemporânea.

A questão não é demonizar a tecnologia, mas aprender a utilizá-la com consciência, discernimento e propósito. A inteligência artificial, por exemplo, tende a transformar profundamente a produção de conhecimento, o mercado de trabalho e as formas de aprendizagem. Portanto, ignorá-la seus efeitos para a educação formal ou informal seria desconectar a escola do próprio mundo contemporâneo. Por outro lado, torna-se cada vez mais necessário desenvolver competências humanas que a tecnologia não substitui facilmente: pensamento crítico, ética, empatia, escuta, autoconsciência, equilíbrio emocional e capacidade de discernimento.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tantas dificuldades para transformar informação em sabedoria. Recebemos respostas cada vez mais rápidas, mas nem sempre encontramos espaço para refletir sobre elas.

É justamente nesse cenário que iniciativas como o Vivendo Valores na Educação (Vive) ganham relevância. Presente no Brasil desde 1996, o Vive propõe uma educação que integra conhecimento, autoconhecimento e convivência ética, oferecendo momentos de pausa e reflexão em meio à aceleração cotidiana, por meio de convidar crianças, jovens e adultos a vivenciarem valores como paz, respeito, amor, tolerância, honestidade, humildade, cooperação, felicidade, responsabilidade, simplicidade, liberdade e união. Vividos no cotidiano, esses valores ajudam cada pessoa a refletir sobre suas escolhas e as implicações práticas de expressá-los na relação consigo mesma, com os outros, com a comunidade e com o mundo em geral. Em uma época marcada pela velocidade, os valores humanos ajudam a recuperar profundidade, significado e sentido de pertencimento.

Mais do que conceitos teóricos, esses valores representam caminhos para que o ser humano volte a lembrar-se de si mesmo, do outro e da qualidade das relações que constrói. Talvez um dos maiores desafios da educação atual seja exatamente este: ensinar o ser humano a utilizar a tecnologia sem perder sua própria humanidade porque, em meio à velocidade do mundo moderno, lembrar-se de quem somos pode se tornar um dos atos mais importantes da nossa época.


Núbia Hübner é educadora e membro do grupo gestor Vivendo Valores na Educação (Vive-Brasil) da Brahma Kumaris

vivendovaloresbrasil@gmail.com


Informar para transformar

Jornalismo positivo há 21 anos.

CONTATO

contato@jornalzen.com.br

© 2026. All rights reserved.