TEXTOS & CONTEXTOS

Profa. Dra. Jackeline Susann

Mulher e cotidianidade


“As coisas têm vida própria. [...] No mundo estão acontecendo coisas incríveis”

(Gabriel García Márquez)


O clássico Cem anos de solidão, do autor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Nobel de Literatura em 1982, tem repercutido atualmente entre os leitores desde a recente adaptação da obra às telas do streaming Netflix, no formato de série com 16 episódios. Entre os enredos entrelaçados, chama atenção a trajetória de Úrsula, uma mulher centenária, como bem diz Márquez: “ativa, miúda, severa, de nervos inquebráveis, que parecia estar em todas as partes do amanhecer até alta noite, sempre perseguida pelo suave sussurro de suas anáguas rendadas”. Quantas Úrsulas estão presentes nas famílias? Uma matriarca onipresente que é sinônimo de força e sabedoria.

A história de Úrsula narra o lugar, o pertencimento, a hereditariedade, o envelhecimento, as marcas no corpo e no coração, a sabedoria, a solidão e aquilo que nos acompanha durante todo o tempo: o cotidiano. Ali em Macondo, uma aldeia construída na beira do rio, os homens demonstram fascínio por guerras intermináveis, pergaminhos, invenções e ouro. Enquanto isso, quem sustentava a vida na casa são as mulheres como Úrsula em que a resistência não decorre das batalhas, mas dos ritos cotidianos, do cuidado coletivo, do tecer, do manejo do alimento e da organização da rotina. Ela mantém a casa e as vidas que nela habitam. Seu trabalho diário de consertar, cuidar e organizar é a coluna que sustenta tudo.

Reivindicar o cotidiano através da figura de Úrsula é subverter a lógica que invisibiliza e desvaloriza o trabalho do cuidado e, ainda, coloca a mulher em um lugar subalternidade. É preciso reconhecer que o que sustenta a vida é a rotina diária e que são as mulheres que acabam assumindo a responsabilidade com o entorno. Além do cuidado, a função de Úrsula se estende ao sustento econômico e material da família.

O livro narra o seu trabalho autônomo, na fabricação de doces, para suprir a falta de iniciativa do seu marido. Esse ponto nos traz a reflexão sobre como o papel feminino não está reduzido ao lar, pois muitas de nós necessitam trabalhar em funções remuneradas para garantir o sustento da casa, gerando dupla e até tripla jornada de trabalho.

Embora o trabalho invisível seja um tema debatido em fóruns globais em favor dos direitos das mulheres, no contexto da vida comum, as funções triplicadas femininas ainda permanecem encobertas e poucas dessas atribuições são delegadas aos homens.

Ao mesmo tempo, a narrativa de de Úrsula nos ajuda a desconstruir hierarquias. Ao sustentar a vida, dia após dia, ela evidencia a relevância do seu papel no fortalecimento da comunidade local por meio do trabalho de cuidado, da preservação da memória, da tradição das gerações e da afetividade; qualidades sem as quais a sociedade ruiria.

Em sua fase centenária, debilitada e adquirindo cegueira, Úrsula não perde sua centralidade. Ela governar pelo tato, pela escuta e pela memória. Isso estremece o mito de que a validade de uma pessoa, em particular uma mulher idosa, está atrelada à sua produtividade visível. A velhice de Úrsula não diminui sua autoridade e quem ela é. Pelo contrário, consagram sua sabedoria e presença.

Por fim, na releitura da frase “no mundo estão acontecendo coisas incríveis”, de García Márquez, dada a ênfase de que “é no cotidiano que coisas incríveis acontecem”, busca-se um outro sentido para o poder existencial da cotidianidade; muito além de grandes guerras vencidas e fatos heroicos que preenchem os registros oficiais. É exatamente isso que nos inspira Úrsula e milhões de mulheres na vida real: sua força diária que sustenta o lar, organiza a vida coletiva e cultiva os afetos.

Dar centralidade ao cotidiano é, portanto, um ato político que mantém o mundo, dia após dia, pela constante prática do cuidado exercida, na grande parte das vezes, pelas mulheres.


Dra. Jackeline Susann Souza da Silva é professora adjunta na Universidade Estadual do Ceará (Uece).

jackelinesusann@gmail.com


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