ZENTREVISTA

UMA NOVA JORNADA
Beto Colombo

Depois de 17 anos à frente de uma das maiores empresas brasileiras do ramo de tintas, Albertino Colombo descobriu que a carreira corporativa não era mais sua vocação. O despertar desse catarinense de 57 anos, mais conhecido como Beto, foi acontecendo aos poucos, desde a infância. Aos 10 anos, tentou entrar em um seminário e fazer a formação sacerdotal. Sua história começou a mudar quando alcançou a independência financeira e ingressou no curso de teologia e filosofia na Diocese de Tubarão. Mas aos 21 anos, casado e precisando de uma fonte de renda para sustentar a família, resolveu empreender no ramo de complementos automotivos, afastando-se de sua essência. A retomada veio por meio da música, da literatura e do esporte. Mas o insight principal se deu em 2007, após percorrer o Caminho de Santiago, trilha milenar de 819 quilômetros entre Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, e Santiago de Compostela, na Espanha. Ao retornar bastante motivado para se transformar espiritualmente, Beto ingressou como aluno ouvinte na disciplina “Análise” do curso de psicologia na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Apaixonou-se pela teoria junguiana, o que foi a gênese da sua jornada para a filosofia clínica, disciplina da qual é professor titular do curso de pós-graduação na mesma instituição. Palestrante e autor de dez livros, Beto atende como psicoterapeuta em consultório focado em clínicas filosóficas. Ele continua atuando em suas organizações como conselheiro empresarial e exerce atividades voltadas para a segurança psicológica e mentoria a empresários, executivos e profissionais liberais. Nesta entrevista ao JORNALZEN, Beto Colombo fala mais sobre a filosofia clínica como nova terapêutica no Brasil, ainda pouco conhecida, mas, segundo ele, eficaz ferramenta na governança corporativa com ênfase em gestão de pessoas. 

O que o levou a deixar a carreira corporativa?

Entrei no mundo empresarial para ganhar o pão de cada dia. Eu precisava de um meio de vida, então, um certo dia do ano de 1986, criei uma empresa. Dezoito anos depois, acordei e descobri que esse meio de vida estava se tornando existencialmente um meio de morte. Havia em mim algo que me pressionava internamente, causando altos e baixos em minha estrutura de pensamento. Um dia, estava muito bem, alegre, contente, feliz; dias depois, estava triste, infeliz, ansioso, mal-humorado. Vivia me perguntando: o que estava acontecendo comigo? Foi quando descobri que estava trabalhando em algo que não tinha a ver comigo. Estava no lugar errado, na ocupação errada. Quando existencialmente você não se sente bem, possivelmente aquele não é o seu lugar.

 

Por que, por vezes, demoramos a colocar em prática nossas verdadeiras vocações?

José Ortega y Gasset, filósofo espanhol, diz que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. O que ele queria dizer é que muitos de nós somos influenciados por tudo que nos circunda, e eu acrescentaria o tempo, o lugar e as relações nessa nossa formação humana. Fomos educados para viver num mundo mecânico. Somos empurrados pelo sistema a aprender profissões que têm a ver com a ciência, com a racionalidade. Muitas pessoas abandonam suas vocações para seguir na corrida do ouro. Assim, foram se abandonando e se perderam da sua jornada.

 

O que trouxe de mais marcante do Caminho de Santiago? 

O desapego de papéis existenciais. Passei boa parte da minha vida corporativa correndo atrás de cargos e diplomas, presidindo associações, clubes e movimentos; pós-graduado nisso, mestre naquilo. Esses títulos tinham um peso significativo para mim e pesaram toneladas em minhas costas no Caminho de Santiago. Deixei-os lá. Eles literalmente ficaram pelo caminho. Esse foi meu mais profundo processo de desapego pessoal.

 

De que forma a filosofia pode ser usada como terapia?

A filosofia clínica é um método terapêutico que usa o saber filosófico desde os gregos até os dias de hoje. Cada filósofo escreveu a partir dele, e como ele funciona ou funcionava. Dito isso, estamos diante da singularidade, na qual o peso e as medidas são diferentes para cada um de nós. Para a filosofia clínica, diante do outro, “eu só sei que nada sei” sobre a pessoa que se encontra diante de mim. O pouco que sei sobre aquela pessoa é que ela é solo sagrado. E sendo o outro sacralidade, para irmos ao mundo dele precisamos temos de nos despojar de nossos pré-juízos, de nossas verdades prontas, às vezes agendadas em nosso intelecto. Após esse primeiro passo, por intermédio da historicidade, montamos a estrutura de pensamento do partilhante.

 

Particularmente, adota alguma prática voltada ao autoconhecimento?

Faço diariamente exercícios de inversão, como meditação e leituras que me fazem introspectar. Uma ou duas vezes na semana, ando por trilhas dentro das matas. Ali é onde a prática acontece, observando pássaros, sentindo a brisa, o aquecer do sol, o som do vento balançando as árvores, o cheiro da terra fresca, o aroma das frutas maduras e o som das correntezas. É mágico. 


Como avalia a proposta do JORNALZEN?

Num mundo cartesiano, no paradigma newtoniano, onde vivemos numa ditadura da razão, da lógica, da ciência, veículos de comunicação que trazem conteúdos não racionais funcionam para algumas pessoas e, especialmente para mim, como um bálsamo para nossas almas.

 

Que mensagem gostaria de deixar para os nossos leitores? 

Às vezes estamos procurando respostas em lugares errados. Algumas vezes, precisamos ir a lugares onde não há estrada para a racionalidade. Ali podemos encontrar a resposta que buscamos. No meu caso, achei o meu caminho ajudando o outro a encontrar o seu. E você?

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